A Integridade

Por SERGE TOUSSAINT, FRC*

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Como todas as virtudes que o ser humano deve aprender a desenvolver para expressar sua perfeição latente, a integridade constitui um dos fundamentos da dignidade humana. Definitivamente, aquele que é desprovido dela é então indigno de si mesmo e da confiança que os outros depositam nele. Entretanto, é relativamente difícil ser totalmente íntegro em pensamento, palavra e ato. Isto porque as circunstâncias da vida nos confrontam constantemente com nossa própria imperfeição e nos submetem a múltiplas tentações. Do ponto de vista rosacruz, essas tentações têm sua razão de ser e são úteis para nossa evolução espiritual, pois nos colocam face a face com nós mesmos e são o espelho da nossa própria moralidade. Por isso elas contribuem para nossa gradual tomada de consciência do que é bom e do que é mau no comportamento humano.

Que é integridade? De maneira geral, podemos considerar que é o respeito aos valores morais em que acreditamos, con­tanto que esses valores estejam em conso­nância com o bem-estar físico, mental e espiritual dos outros. Ser íntegro é, portanto, viver em conformidade com seus ideais, desde que estes não se oponham aos interesses alheios. Inver­samente, não ser íntegro é mentir para si mesmo, seja para se consolar por agir mal e tentar ficar de consciência limpa, seja para enganar os menos experientes em alguma coisa. Disso resulta que a integridade anda de mãos dadas com a honestidade, virtude que é a expressão de uma alma pura. Ela recorre também à eqüidade, isto é, ao senso de justiça, na forma como podemos aplicá-lo em nossa vida cotidiana.

Posto que não se pode ser íntegro quando se é desonesto, devemos nos colocar a questão de saber o que é a honestidade. No sentido mais comum dessa virtude, trata-se de respeitar os bens materiais de outrem e nunca procurar se apropriar deles de maneira indigna ou fraudulenta. Infelizmente, desde que o mundo é mundo sempre houve pes­soas sem escrúpulo de enriquecerem em detrimento dos outros ou de roubarem os pertences alheios. Essa tendência se explica geralmente por falta de espiritualidade e por uma necessidade desmedida de possuir bens materiais. Em casos extremos, resulta de um desejo de se provar que é mais “inteligente” ou mais “poderoso” do que aquele a quem se despoja. Seja como for, nada justifica o fato de ser desonesto, a não ser a falta de evolução ou de educação do indivíduo em questão.

Obviamente, a desonestidade não se limita à sua expressão material; pode ser também de ordem intelectual. Assim sendo, mentir com o objetivo deliberado de enganar os outros é desonesto. Que dizer também das pessoas que usam e abusam de seu carisma para implantar na opinião pública idéias partidárias e dogmáticas, tanto no campo político como no filosófico ou no religioso? Na maioria dos casos, essas pessoas não são sinceras e carecem total­mente de honestidade em seus propósitos. Via de regra, sua motivação principal é a busca de poder e honrarias, o que revela paralelamente um ego dominador. Essa forma de desonestidade é ao mesmo tempo insidiosa e perigosa, pois sob aparências de sinceridade e verdade, pode induzir em erro milhões de pessoas e sub­jugar sua consciência.

Muitos estão convencidos de serem honestos e o são efetivamente. Entretanto, podemos nos perguntar se sua honestidade é baseada numa integridade real ou no medo do que lhes poderia acontecer se fossem apanhados em “delito” de desonestidade. Por extensão, seriam eles também respeita­dores das leis se tivessem certeza de pode­rem violá-las com total impunidade? Nada é menos seguro que isso. Idealmente falando, podemos considerar que um indivíduo profundamente honesto é aquele que poderia não sê-lo sem risco de ficar enrascado, mas que continua sendo honesto a despeito de tudo. É também ser “incorruptível”, no sentido mais nobre do termo. Fora de qualquer contexto pejorativo, a incorrup­tibilidade é uma virtude que todos deveriam ter a intenção de desenvolver, pois repre­senta uma honestidade a toda prova.

Dissemos antes que a integridade tam­bém recorre ao senso de justiça, na forma como podemos concebê-la e aplicá-la no plano humano. Mas todo mundo sabe como é difícil ser justo, tanto para consigo mesmo como para com os outros. Isso é assim porque somos imperfeitos e julga­mos em função das nossas próprias opiniões, que não são necessariamente boas. Entretanto, há compor­tamentos que revelam uma evidente má-fé ou a vontade de ser injusto, na maioria das vezes por interesse. Os mais inclinados a esse tipo de comportamento contam-se entre os que acham que “o fim justifica os meios”. É óbvio que quem faz desse adágio o funda­mento de sua ética demonstra com isto sua imora­lidade ou sua amoralidade, ou mesmo sua maldade.

Contrariamente, a pessoa justa jamais usa sua função, sua autoridade, seu poder ou sua força para obrigar os outros a dize­rem ou fazerem seja lá o que for que eles desapro­vem ou que vá contra o seu bem-estar. Aplicado a nós mesmos, isso implica fazer­mos abstração de qualquer relação “domina­dor–dominado”, principalmente quando essa relação nos é a priori favorável. Com relação a isso, é evidente que toda pessoa que usa de coerção para impor suas idéias a outrem age assim porque é incapaz de demonstrar a validade das mesmas ou porque sabe, em sua alma e consciência, que elas são injustas. Nesse sentido, nin­guém pode ser equânime se não é movido constantemente pelo amor à verdade. Isso faz supor que é impossível ser íntegro na medida em que mente para si mesmo.

A integridade não deve ser limitada a mantermos relações sinceras com os outros. Ela concerne igualmente à maneira como aplicamos à nossa própria vida os princípios morais que defendemos frente aos outros. Ora, o ser humano, em razão de suas fraquezas, tende a falar do bem melhor do que praticá-lo, de onde a expressão: “Faça o que eu digo e não o que eu faço.” Devemos portanto nos esforçar para viver tanto quanto possível em consonância com nossas idéias, a fim de sermos um exemplo por nós mesmos e nos sentirmos verdadeiros perante a nossa consciência. Neste particular, a hipocrisia não é somente a atitude que consiste em falta de franqueza nas relações humanas. Ser hipócrita é também trairmos a nós mesmos e nos permitirmos comportamentos que sabemos que são maus e que reprovamos naqueles que os manifestam.

Enfim, a integridade é ainda o respeito à palavra dada, o que implica cumprirmos nossos compromissos, sejam quais forem. Antes de prometermos isso ou aquilo, devemos, portanto parar um pouco para definir com cuidado se seremos efetivamente capazes de cumprir essa promessa. Caso contrário, mais vale nos abstermos de prometer dizer ou fazer seja o que for. É claro que, por razões independentes da nossa vontade, pode acontecer de sermos obrigados a voltar atrás no que prometemos. Mas se isso se torna um hábito é porque realmente a pessoa não tem palavra, ou mesmo honra. Saiba ele ou não, chega um momento em que os outros deixam de confiar nesse indivíduo, o que é bem legítimo da parte deles. n

 

Do livro “O Ideal Ético dos Rosacruzes”, publicado pela AMORC.

 

 

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