A Solidão

A-Solidão

A Solidão

Jean-Philippe Deterville, FRC

Quantas vezes ouvi pessoas que, ao se confidenciarem a mim, disseram-me: “Sinto-me só”, “Sofro de solidão”, “Sinto-me excluído de tudo”, “Não me integro” ou “Fui abandonado” etc.

Sendo extrovertidos ou introvertidos, não vivemos a solidão da mesma maneira. Alguns dizem que ela não existe, outros que nos habituamos a ela. Pessoalmente, quando criança, conheci uma forma de solidão não tendo nem irmãos nem irmãs, sendo, portanto, mais interiorizado.

Mas há muito tempo as coisas mudaram, e sou feliz por ter agora uma grande família, ou melhor, duas grandes famílias, pois sou filho da Rosacruz e por isso tenho milhares de irmãos e irmãs, amigos e companheiros de estrada. Nunca estou sozinho. Você pode ter esse mesmo sentimento se você tem consciência de que pertence à grande família da humanidade.

A palavra “solidão” tem por origem latina solitudo. No dicionário, a solidão é descrita da seguinte maneira: “Situação de uma pessoa que se encontra só momentaneamente ou por longo período. A solidão é um estado de abandono ou separação o qual sente o ser humano face às consciências humanas ou à sociedade”.

Na vida cotidiana, a solidão pode ser um grande sofrimento, – o maior deles –, pois ela é às vezes consequência de um drama, de um abandono, de um obstáculo ou da separação temporária ou definitiva de um ente querido. O célebre poeta francês do século XIX, Alphonse de Lamartine, escreveu: “Um único ser lhe falta e tudo está deserto!”.

Há pessoas que estão verdadeiramente isoladas e outras que, apesar de vários encontros no dia-a-dia e de um círculo de convivência consequente e presente, sentem-se terrivelmente sós. Esse isolamento moral é, portanto, psicológico, e é imperativo não se render a ele; não construir, entre nós e os outros, paredes invisíveis sem porta nem janela. Por certo, imaginamos que os muros protegem, mas esse não é o caso. Pelo contrário, sem saída para o exterior, eles nos sufocam interiormente, nos impedem de liberar nossas emoções e nos confinam numa atmosfera malsã, nociva e nefasta à nossa saúde moral e física.

Nossa língua sabiamente sentiu os dois aspectos ligados ao sentimento de se estar só. Ela criou a palavra ‘isolamento’ para exprimir a dor de estar sozinho e a palavra ‘solitude’ para exprimir a glória de estar sozinho”.[1] PAUL TILLICH

Podemos constatar que aqueles que se comprazem numa profunda solidão raramente são felizes, comunicativos e abertos aos outros. Certamente, você me dirá, eles podem simplesmente ser contemplativos ou meditativos, imersos em pensamentos profundos. À maneira deles, eles podem também ser muito felizes, ter uma grande riqueza interior, bastar-se em sua ventura etc. É possível, e não duvido disso mesmo porque conheço casos. Mas, no entanto, essa solidão pode mascarar, em alguns casos, um mal-estar ou mesmo uma inclinação àquilo que chamamos “depressão” ou uma noite negra permanente. Se, além disso, esta solidão é acompanhada pelo silêncio, ela pode confirmar o que acabo de dizer. Por certo, este não é sempre o caso, e é verdade que a fala excessiva e a exteriorização demasiada podem também ser o sintoma de um grande sentimento de solidão ou de um vazio interior.

Quando eu disse: ‘a solidão é santa’, não concebi a solidão como uma separação ou um esquecimento completo dos homens e da sociedade, mas sim como um recolhimento onde a alma pode se encerrar nela mesma.”  – ALFRED DE VIGNY

É notório que é preciso ser uma boa companhia para si próprio, mas disto não está excluído sê-la também para os outros. Você poderia me responder alegando que os seres humanos estão, em geral, longe de serem indivíduos facilmente tratáveis ou agradáveis, e que seus defeitos, muito frequentemente manifestados, são, para você, mais uma fonte de desentendimento e sofrimento do que de interesse e felicidade.

De onde vem esse sentimento de solidão que experimentamos, e que nos leva com muita frequência a dizer que estamos sempre sós? Seria porque, ao nos encarnarmos, deixamos a contragosto a grande Alma universal, uma família? Seria porque nossa mãe biológica, nos expulsando de seu corpo, nos obriga a tornarmo-nos, em alguns segundos, seres independentes, doravante sós e lançados à descoberta de um outro universo? Ou será o peso das responsabilidades e dos deveres que nos incumbem enquanto indivíduos manifestos?

É na solidão que estamos menos sós.” – LORD BYRON

Assim que traspassamos um obstáculo e superamos uma provação, ficamos orgulhosos por haver logrado o êxito sem a ajuda de outrem. Com frequência, uma proeza individual é mais bem vivida e percebida do que um sucesso coletivo. Sem cessar, de nosso nascimento à nossa morte, reaparece esse princípio de individualidade ao qual se soma o de responsabilidade e, amiúde, o de culpa. Certamente, este último pode ser coletivo e estar ligado a uma nação ou a um grupo, mas no mais das vezes ele nos é próprio.

Para voltar a esse sentimento de solidão o qual todos provamos em vários níveis, podemos constatar que ele nos ocorre com mais frequência nos momentos difíceis, nas penas e nas dores. Ele é acompanhado de um sentimento de incompreensão da parte dos outros, da impressão de não sermos reconhecidos pelos atos e tarefas logradas, de nos debatermos sós e de não sermos apoiados nem socorridos. Em suma, de estarmos sós, muito sós, carregando um fardo pesado, quando não “toda a miséria do mundo”.

Se sentir incompreendido pelo outro ou pelos outros ou, conforme as expressões populares, “pregar no deserto”, “não ser ouvido mesmo gritando” etc., deixa no coração do homem um profundo sentimento de solidão. Assim será por muito tempo, certamente: isto faz parte de nossa natureza humana; isto está ligado ao nosso ego.

Você, que lê estas reflexões, lembre-se que não está só!

Hoje me darei um tempo para ficar só. Me darei um tempo para estar calmo. Neste silêncio, hei de escutar… e de ouvir minhas respostas.”  RUTH FISHEL

 

[1] Trata-se de uma tradução da língua francesa, à qual se refere o autor nesta citação. As duas palavras em questão são isolement e solitude, cuja palavra correspondente em português empregamos no sentido de expressar o sentimento não-negativo de se estar só, em detrimento de “solidão”. (N. do T.)

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