Uma base para a moral

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Uma base para a moral

Cecil Poole, FRC

Provavelmente, poucos indivíduos da atual geração mais jovem estão bem familiarizados com os escritos do filósofo-místico do século 19 e início século 20, John Burroughs. Mesmo a geração mais velha talvez se lembre de John Burroughs apenas como escritor naturalista. Na verdade, ele fez muito para popularizar o estudo da história natural e estimular o estudo de vários assuntos relacionados com a história natural como passatempo ou diversão. Devido a ser desconhecido ou conhecido apenas como escritor naturalista, poucas pessoas hoje estão familiarizadas com seus escritos filosóficos e, não obstante, grande foi a sua contribuição no campo da literatura e da filosofia, particularmente durante a última metade do século passado. Muitas de suas obras nesse campo são hoje antiquadas e não têm a mesma importância que tinham quando ele as escreveu, porém, como acontece em todas as filosofias e reflexões dos indivíduos que têm analisado a si mesmos e suas relações para com o Cósmico, do qual são parte integrante, a verdade eterna sempre se manifesta como prova o trecho que se segue, extraído de um de seus livros:

“Toda a ordem do universo exalta a virtude e condena o vício. As coisas chegaram ao que são, o homem chegou ao que é, o capim e as flores cobrem os campos, as árvores florescem e produzem fruto saudável, o ar é fresco, e a água mata a sede pela ação dos mesmos princípios pelos quais verificamos que a virtude é desejável e o vício abominável. As criaturas têm discordado, guerreado e devorado umas às outras no passado, e no ajuste final, no equilíbrio a que finalmente chegaram, compreendemos que a virtude deve ser buscada e o vício afastado; compreendemos que a vida de um homem bom é fruto do mesmo equilíbrio e da mesma proporção que tornam verdes os campos e maduro o trigo. Não é por alguma circunstância fortuita, pelo favor especial de algum deus, mas, pelo viver harmonioso com as leis imutáveis pelas quais o mundo orgânico evoluiu, que o homem é o que é.”

Isto serve de introdução para o assunto que desejo analisar nesta oportunidade. Muitas pessoas estão preocupadas com o mundo atual com suas ideias instáveis, com sua modificação nos valores, e com a influência minguante que os conceitos religiosos exercem atualmente sobre os indivíduos. A base sobre a qual foram anteriormente estabelecidas as crenças, as práticas, e os princípios morais está perdendo o seu apoio. É bem conhecido que no campo da religião, em determinada época, a vida moral do homem estava estreitamente associada com as suas práticas e crenças religiosas. Era também conceito comum que a violação do código moral resultaria em punição na eternidade, isto é, o código moral estava intimamente relacionado com a prática religiosa. Lembro-me de que, quando ainda menino, violar um princípio moral ou uma doutrina estabelecida pela igreja equivalia a um bilhete de ida para o inferno e a condenação eterna.

As pessoas hoje em dia não aceitam nem respeitam a religião como apoio necessário das práticas morais do indivíduo. Consequentemente, há os que afirmam que a moralidade tem pequena influência sobre as gerações modernas e que, na verdade, estamos vivendo na época mais imoral de todos os tempos. Não vou abordar a questão do grau de moralidade que hoje existe ou que existiu em qualquer outro período da história, porém concordaremos todos em que a religião como força, atualmente, pode exercer pouca pressão sobre a conduta moral do indivíduo.

Ainda há base para a moralidade, e essa base, segundo afirmou um renomado pensador, não tem merecido a atenção devida. Esse conceito é que há estreita relação entre a moralidade e a liberdade. De todos os valores no mundo físico, a liberdade tem sido considerada como um dos maiores. Os homens têm se empenhado em guerras, têm morrido, têm sacrificado sua vida e suas posses em nome da liberdade; países têm sido formados; códigos e sistemas de conduta têm sido elaborados para assegurar liberdade ao indivíduo comum. Quase todas as nações do mundo ocidental sentem-se orgulhosas com a base em que está estabelecido o seu país para permitir o máximo de liberdade ao indivíduo. Sem dúvida, a liberdade é um bem valioso. Ela confere a cada cidadão o direito de fazer o que quiser, de agir como melhor entender, e de encaminhar sua vida de acordo com suas próprias decisões e suas próprias crenças se, com essa maneira de proceder, não interferir com o direito de liberdade de outros indivíduos.

Penso que não há dúvida, e provavelmente não haverá objeções ao princípio, de que todos nós desejamos liberdade. Tudo faremos para evitar a cessão de nossos direitos à livre iniciativa e à liberdade. Com esse conceito, a moralidade tem estreita relação. O viver imoral restringe a liberdade. A pessoa que mente, imediatamente se coloca em posição que restringe sua liberdade visto que tem de pensar no desfecho de tudo que diz e faz, para estar certa de que tudo se ajusta à mentira que já contou. Sempre que conta uma mentira, sua conduta futura no setor ou parte de sua vida por ela afetado tem sempre de se adaptar à mentira contada. O resultado é que ela renuncia a uma parte de sua liberdade de ação porque tem de parar e pensar na maneira de basear sua vida na mentira que contou e deseja que seja aceita como verdade.

Em outras palavras, a base para a moral hoje em dia pode ser firmada no amor à liberdade. Se, desde a infância, nos for ensinado o valor da liberdade e que qualquer ato imoral restringe essa liberdade, então, tenho certeza de que, com o tempo, uma base para a ação moral poderá ser estabelecida para que essa liberdade seja mantida, tão forte quanto a que assenta na superstição, nas crenças religiosas, ou na ameaça de punição.

A moralidade não deve ser associada com a punição. Deve, sim, estar ligada às vantagens e ao gonzo da liberdade individual. O indivíduo moral é o mais livre dos indivíduos. O indivíduo que, estando livre, tem as maiores oportunidades para evoluir, progredir, viver sua própria vida, e cumprir as finalidades para as quais teve de encarnar.

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