Tempo Perdido

Jeanne Guesdon, SRC

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Charles Darwin (1809-1882) foi um dos maiores cientistas do último século. Sua obra fundamental sobre a “origem das espécies” teve, desde sua publicação, uma repercussão universal e orientou a biologia em caminhos novos e fecundos. Darwin baseou seus trabalhos em milhares de observações. Teve, portanto, um trabalho enorme. No entanto, sua saúde não era boa; ele era fisicamente incapaz de um trabalho de muitas horas seguidas e, em suas memórias, confessa: “Nunca pude trabalhar mais de duas horas por dia”.

Duas horas? É bem pouco. Mas quando esse lapso de tempo é repetido todo dia, realmente todo dia, ele permite fazer obra digna de admiração, um verdadeiro monumento de saber humano. Chamamos sua atenção para o bom uso que cada um de nós pode e deve fazer do mais valioso dos tesouros: o tempo.

Quantas vezes ouvimos confidências do tipo: “Sim, eu gostaria muito de fazer progressos maiores, mas não tenho tempo”. Ao que podemos quase sempre responder, sem medo de errar: “Bem, esse tempo necessário ao estudo, você o tem, mas não sabe usá-lo. Você o desperdiça, você o joga fora, sem nem mesmo se dar conta disto…”.

Pois assim como gotas de água, milhares de vezes repetidas e caindo sempre no mesmo lugar, acabam vencendo a resistência do granito, assim também os minutos de estudo ou de meditação, repetidos diariamente, nem que seja à razão de dez ou quinze minutos cada vez, farão de você um autêntico buscador da verdade, logo, um Rosacruz.

Faça um exame sincero de seu uso do tempo diário. A quem você faria crer (sobretudo, não a si mesmo) de que não há um só quarto de hora por dia que você desperdice: conversas fúteis, leitura de jornais insípidos, andanças sem objetivo, e muitos outros motivos de perda de tempo!

Economizando esses momentos de tempo perdido, encontramos facilmente, mesmo que sejamos “terrivelmente ocupados”, aquele quarto de hora necessário ao estudo. E com a condição expressa de continuarmos todos os dias, sem nenhuma interrupção, de perseverarmos, faça chuva ou faça sol, é certo e seguro que podemos realizar um trabalho considerável e atingir nossos objetivos.

Há também um meio mais sutil de perder tempo: é usá-lo pela metade, isto é, não nos dedicarmos completamente à tarefa que executamos, sendo que devemos nos entregar a ela por inteiro, não nos deixar­mos distrair por nada, estarmos inteiros naquilo que fazemos. O importante é uma atenção absoluta, que tenha de certo modo um valor magnético.

Naturalmente, um tal resultado não se obtém num só dia. Mas o ensinamento da Ordem vai, justamente, ensiná-lo a obter esse estado de concentração, no mínimo de tempo e com o máximo de eficiência.

Também é importante escolhermos para nossos momentos de estudo um tema relacionado às nossas possibilidades, aos nossos gostos. Se quiséssemos atacar uma tarefa árdua demais, possivelmente os fracassos nos cansariam e nos desestimulariam, ao passo que, se o esforço estiver à altura dos nossos meios, ele ampliará o campo de nossa ação, do mesmo modo que a água vai sulcando a terra um pouquinho de cada vez. O crescente interesse vai também nos abrir novos horizontes de busca; o esforço inicial se tornará um prazer e dará o sentimento e a satisfação do dever cumprido, o que em geral proporciona, acima de tudo, paz e muitas vezes felicidade também.

Lembremos também que o tempo foge com rapidez. Nós marcamos sua passagem com medidas humanas, mas não podemos detê-lo. O minuto presente nem bem existe e logo um outro chega, e este é substituído pelo seguinte.

Dentre os momentos perdidos, esta mensagem mencionou as conversas fúteis; uma pessoa rumina várias vezes seguidas aquilo que ela já disse… E para quê?… Para se repetir! Uma outra quando você lhe conta uma experiência vivida, um acidente, um acontecimento qualquer, vai imediatamente lhe citar algo que aconteceu com ela numa circunstância parecida. Ora, lembre-se de que aquilo que tem um interesse pessoal para você muitas vezes não interessa ao seu interlocutor; do mesmo modo, queremos exortá-lo, quando você próprio se sentir tentado, durante uma conversa, a dizer: “Ah, sim, comigo também já aconteceu isso ou aquilo”, a parar um segundo e se perguntar se o que você está para dizer é realmente importante, e a pensar que a pessoa com quem você está conversando, muito provavelmente, não tem nenhuma vontade de ouvi-lo.

Na hora de falar, seria bom também que você se lembrasse de uma das lições rosacruzes que fala do esquecimento de si mesmo e da supressão do pronome “eu”! Também nesse caso, há uma disciplina a ser seguida, um treinamento a ser feito; e, em vez de “colher flores ao longo da estrada da vida”, essa disciplina e esse treinamento o ajudarão a subir a encosta, mais penosa, da senda da montanha que conduz à iluminação.

 

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