Psicologia e Espiritualidade

Université Rose-Croix Internationale, França

1.162

Originalmente, a psicologia era uma ciência empírica, possuindo um elo estreito com a espiritualidade. É interessante notar, aliás, que na maioria das obras de referência ela é definida como o “conhecimento da alma” e que é considerada como uma parte da metafísica. Constatamos, porém, que esse elo se rompeu progressivamente ao longo dos séculos e que essa ciência metafísica foi racionalizada. Esse fato é lamentável e faz com que a necessária abordagem do assunto fique situada a meio caminho entre a psicologia e a espiritualidade. É esse o tema que vamos considerar nesta mensagem.

Como todos sabem, grande parte da psicologia contemporânea baseia-se nos escritos do neurologista e psiquiatra Sigmund Freud, nascido em 1856, em Freiberg, na Morávia. Freud desenvolveu o que hoje conhecemos como “psicanálise”. Com muita perseverança e grande força de caráter, ele procurou mostrar aos cientistas da primeira metade do século 20 a importância do inconsciente. A visão freudiana, no entanto, era demasiado racionalista, pois ele se esforçou em dar critérios objetivos às suas hipóteses e teorias, provavelmente para torná-las mais plausíveis aos olhos dos cientistas da época. Esse procedimento o levou a considerar muitos fenômenos de ordem mística, religiosa ou artística como sublimações. Mas os tempos mudaram, especialmente no plano sócio cultural. Assim, constatamos atualmente que o inconsciente é admitido pela grande maioria dos indivíduos, inclusive por aqueles que não têm familiaridade com a psicologia e a psicanálise.

Os escritos freudianos constituem toda uma interpretação e dão algumas respostas a importantes perguntas sobre a estruturação do Eu e o desenvolvimento psicoafetivo do ser humano. Entretanto, as teorias clássicas que eles apresentam não são mais suficientes ou não convêm mais a certo número de indivíduos, principalmente àqueles que se interrogam profundamente sobre si mesmos e sobre o sentido da vida. Neste início do século 21, marcado por transformações de todos os gêneros, essas mesmas teorias clássicas tornaram-se redutivas aos olhos de muitos, provavelmente porque elas não levam em conta a dimensão espiritual do ser humano. Quanto a isso, a análise exclusivamente freudiana não se adapta mais à sociedade atual.

A humanidade vive atualmente uma verdadeira crise existencial. Para se convencer disso, basta que se considere todos os problemas com que o mundo está se defrontando, seja no plano social, econômico ou político. Essa crise é sentida igualmente no plano coletivo e no individual, o que explica por que assistimos a tentativas e propostas de mudanças em todos os campos, tanto repentinas como planejadas no tempo. Esse fenômeno é necessariamente acompanhado de questionamentos muitas vezes dolorosos, porque se opõem aos hábitos e costumes ou dão uma impressão de regressão. Posto que o coletivo e o individual estão interligados, encontramo-nos diante de uma situação em que as depressões nervosas são bem numerosas. De fato, podemos dizer que talvez nunca tenha havido tantas pessoas deprimidas como nos dias de hoje, o que é um fator significativo dos tempos conturbados em que vivemos nas sociedades modernas.

Em muitos casos, o estado depressivo de um indivíduo é um apelo de suas profundezas. Significa que ele está insatisfeito no mais profundo de si mesmo, estando essa insatisfação na origem do sentimento de mal-estar. O que mais deve chamar nossa atenção nessa questão é que em nossa época muitas pessoas não são felizes interiormente e não conseguem dar um sentido à sua vida. Educadas em determinado contexto religioso, muitas vezes elas o rejeitam, mas não o substituem, o que cria um sentimento de frustração e um apelo interior. Por essa razão, não raro vemos pessoas que começam a trilhar um caminho religioso ou místico após uma depressão ou uma doença que as tenha obrigado a refletir sobre questões que aparentemente haviam posto de lado. Em última análise, a causa principal da crise existencial que a humanidade vive atualmente é de natureza espiritual. Por isso, as respostas psicológicas usuais não estão sendo suficientes para resolvê-la. Como demonstram investigações sérias, muitos indivíduos sentem necessidade de uma transformação em profundidade de sua vida pessoal e da sociedade, devendo essa transformação abranger os diversos componentes do ser. Tal constatação deverá levar cada vez mais pesquisadores a apresentar metodologias que associem psicologia e espiritualidade.

O campo da psicologia será consideravelmente ampliado quando teorias como o carma, a reencarnação, ou faculdades como a intuição, a telepatia, a projeção psíquica, a harmonização cósmica, forem levadas a sério por um número maior de cientistas. A partir daí, os acontecimentos passados, presentes e futuros não terão mais a mesma conotação nem o mesmo significado. A grande psicanalista Françoise Dolto costumava dizer às pessoas que se queixavam repetidamente de seus pais: “Sabia que você mesmo escolheu os pais que tem?”. Victor Frankl, outro psiquiatra famoso, que sobreviveu a cinco anos em campo de concentração, respondia às pessoas que muitas vezes reclamavam de não esperar mais nada da vida: “E o que a vida espera de você?”. Dois tipos de resposta que são uma verdadeira paulada, à maneira das fórmulas bem particulares dos Mestres orientais e cuja finalidade é abrir uma porta nas profundezas da consciência, a fim de orientar o indivíduo para a busca de um sentido a dar à sua vida. Ora, que é que constatamos na maioria dos seres humanos? Que eles não levam em conta as leis da natureza, que usam menos de 10% de seu potencial cerebral, que têm faculdades psíquicas que só precisam ser desenvolvidas, mas que na maioria das vezes permanecem abandonadas. Que não têm suficiente interesse pela espiritualidade.

No entanto, a partir do momento em que todos esses fatores forem levados em consideração, muitas mudanças ocorrerão nos planos psicológico e espiritual. Não se trata de pregar uma política de super-homem em busca de “poderes”, mas, ao contrário, de facilitar o desabrochar do ser na perspectiva de uma sabedoria maior, em prol dos nossos semelhantes. Entre os elementos importantes que são mencionados cada vez mais, há os papéis respectivos do cérebro direito e do cérebro esquerdo. Como hoje se ensina, a parte direita está ligada à intuição, aos sentimentos, à criatividade, à inspiração e à comunicação não verbal. Já a parte esquerda ocupa-se do racional, da memória, da análise, da linguagem, da síntese. Ao que tudo indica, os contatos com os planos superiores de consciência efetuam-se mais particularmente com o auxílio do cérebro direito, uma vez que ele é mais receptivo e intuitivo. Em estado de meditação ou de relaxamento, a sincronização entre a parte direita e a esquerda mostra ser de melhor qualidade, de modo que as impressões obtidas com o auxílio da parte direita podem ser concretizadas em palavras ou escritos, estruturados através da parte esquerda. Além disso, essa sincronização é facilitada quando os centros psíquicos estão suficientemente ativos. E mais, o trabalho espiritual facilita a ativação de novos circuitos neurônicos, ajudando até a alterar o modo habitual de pensar.

Conforme indicam as explicações que acabamos de dar, é preciso que o misticismo seja considerado objeto de estudo da psicologia atual, a fim de voltar a dar a essa ciência sua dimensão espiritualista. Isso implica que os próprios psicólogos e psiquiatras voltem-se para a espiritualidade. Há alguns anos, o renomado psicoterapeuta Carl Rogers escreveu o seguinte: “Talvez vejamos, na próxima geração, psicoterapeutas cheios de esperanças, livres de defesas e resistências acadêmicas, que ousarão buscar uma via lícita que não seja limitada pelos cinco sentidos, uma realidade onde o passado, o presente e o futuro sejam uma só coisa, onde o espaço não é mais uma barreira e onde o tempo desapareceu, uma realidade que só pode ser percebida e conhecida quando somos receptivos, ao invés de sermos ativamente levados a conhecer. Esse é um dos mais fabulosos desafios à psicologia”. Devemos ver nessas palavras o discurso de um visionário? Neste caso, sua visão diz respeito às décadas que estão vindo agora…

Aqui estamos nós, na aurora do terceiro milênio, num período de transição entre a Era de Peixes e a Era de Aquário. Desde já, mudanças estão acontecendo em todos os aspectos da nossa vida diária. Através dessas diversas mudanças, vemos aparecer novos valores baseados na parceria, no trabalho em equipe, no compartilhamento, nos projetos de grupo etc. Assim, o que parece caracterizar esses tempos que estão vindo é que na maioria dos campos, quer se trate de ciência, tecnologia, terapêutica, artes etc., nenhum indivíduo isolado poderá assumir sozinho o objeto de sua atividade. Do mesmo modo, nenhuma nação será capaz de evoluir positivamente sozinha e resolver eficazmente seus próprios problemas. O trabalho em conjunto, com complementaridade de conhecimentos e respeito mútuo de competências, tornou-se, portanto, uma necessidade, não mais na alternativa de vencer ou de ser o melhor, como muitas vezes acontece, mas na perspectiva de agir em conjunto para o bem-estar da coletividade humana. Se aplicada corretamente, essa complementaridade de conhecimentos valorizará o sentido comunitário, porém respeitando os interesses individuais. Em outras palavras, ela contribuirá para o desenvolvimento da fraternidade entre todos os seres humanos e permitirá que cada um tome consciência da necessidade de viver em harmonia mútua.

Todo indivíduo que desperta sua consciência espiritual contribui para a evolução da consciência coletiva da humanidade. Cada vez mais pessoas se interessam pelos mistérios que fogem do comum. Estão convencidas de que há diferentes planos de consciência no ser humano e outras dimensões no universo, fazem-se perguntas sobre a morte, o além e as razões de sua existência etc. Mais ou menos conscientemente, elas se sentem atraídas pelo misticismo e começam uma peregrinação interior que as levará gradualmente a descobrir a Consciência Cósmica. Com relação a isso, o grande acontecimento do século 21 será talvez o desenvolvimento dessa consciência superior, num máximo de indivíduos. Seria isto uma utopia? Entre as utopias e as realidades, quase sempre existe apenas a perseverança de algumas pessoas de fé, conhecimento e luz. Ademais, a ascensão à supraconsciência é verdadeiramente a meta a ser alcançada por todo ser humano.

No livro intitulado “Consciência Cósmica”, o psiquiatra Richard Bucke define da seguinte forma esse estado de consciência que se situa além da consciência comum: “Essa expressão traduz uma experiência durante a qual vivemos a unidade do Cosmo e nos percebemos dentro dele, e não fora, como muitos poderiam imaginar. Essa experiência é acompanhada de sentimentos de paz profunda, plenitude e amor por todos os seres. Percebemos o funcionamento e a razão de ser do universo, a relatividade das dimensões de tempo e espaço, a insignificância e a ilusão do mundo em que vivemos. Uma iluminação acompanha amiúde essa percepção. Ao menos, é isso que os místicos descrevem em suas visões. Via de regra, essa experiência é o resultado de uma longa e lenta evolução, e marca o início de uma profunda transformação no sentido dos mais altos valores da humanidade”. Encontramos descrições análogas, embora de formas variadas, em pessoas tão diferentes como Jung e São João da Cruz. Jung, o psiquiatra, voltado para o Eu cósmico e São João da Cruz, para as visões espirituais cheias de puro amor.

Assim como o despertar do ser favorece a vinda de grandes sonhos místicos ou de ideais, a espiritualidade pode favorecer a eclosão de novas abordagens psicológicas. No mundo da consciência humana tudo está interligado. Podemos, então, conjeturar que o futuro da psicologia atual deve passar pela espiritualidade. Mas, como indicamos antes, não é exatamente isso que está acontecendo em todos os campos? E não será somente recorrendo ao espiritual que conseguiremos resolver grande parte dos problemas que se apresentam às nossas sociedades modernas? De qualquer modo, para tornar plausível uma união entre a psicologia e a espiritualidade, é preciso que se considere essa união numa perspectiva aberta a um futuro que levará em conta as necessidades materiais e as aspirações espirituais dos seres humanos do século 21. Assim sendo, é para as gerações futuras, os verdadeiros filhos de Aquário, que devemos trabalhar e lançar as bases de um mundo mais altruísta e, consequentemente, mais fraterno.

Extraído da Revista O Rosacruz, segundo trimestre, 2003

** Tradução: ROSANA PONTES, S.R.C.

você pode gostar também