O Anseio Espiritual

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O Anseio Espiritual

Devemos admitir que o anseio espiritual e sua satisfação são uma evanescência, porção do eterno fluxo das coisas que pertencem à consciência humana e ao mundo exterior, algo originado de um primitivo estado produzindo, por sua vez, uma condição mental oposta: indubitavelmente há em certas formas do anseio espiritual um vai e vem, um fluxo e refluxo. Narra Plotino ter por três vezes gozado a imediata visão de Deus; Jacob Boehme fala de uma grande experiência da qual “não poderei dizer nem descrever o triunfo que me invadiu a alma”. Porém, nestes exemplos todos que poderiam ser multiplicados indefinidamente, vemos sempre repetida a velha história do fluxo e refluxo. Esses mais elevados êxtases da alma são um momento apenas na vida, e só a memória pode retê-los …

É fato por demais conhecido que o cérebro de um grande erudito tem circunvoluções profundas e sinuosas, e centenas de pregas que não aparecem no cérebro de um homem comum. Isto mostra que a labuta mental transforma e desenvolve continuamente o instrumento com o qual a mente trabalha. A Alma está sempre moldando seu instrumento.

Neste sentido somos nós mesmos nossos criadores. Cada ato de nossa vontade que responda às vozes celestiais, que rejeite o pior e escolha o melhor, contribui para a perfeição do instrumento pelo qual os céus se “registram” em nós, alarga e aprofunda os canais pelos quais fluem as correntes do poder espiritual. E isso não é tudo: o anseio espiritual como vívida forma de consciência, dizemos, flui e reflui, necessariamente. Porém, o que a ele se seguirá? Deverá o homem, após uma grande experiência interior sair a passear, comer e beber, brincar com seus filhos, ouvir música, ir trabalhar para ganhar dinheiro?  Deverá ele, depois que as experiências mais divinas ocorreram em sua mente, enchê-la novamente e com milhares de coisas que o mundo oferece, consentindo que elas, por sua vez, estimulem seu entusiasmo e ajam sobre sua vontade? Um monge medieval diria “não”.

O homem moderno aprendeu mais, pois descobriu que Deus está no mundo assim como acima dele, e que ele não conhecerá Deus em todos os Seus aspectos exceto pelo uso e o deleite interior de suas manifestações materiais.  O provérbio “ver todas as coisas em Deus” com que Malebranche buscava solucionar o enigma metafísico da percepção, transformou-se para “ver Deus em todas as coisas”, e tornou-se a alegria e proteção de sua vida.

Nesse sentido, o anseio espiritual, mutável quanto à sua forma, torna-se, nas almas fervorosas, caraterística imutável. Estas almas têm o mais amplo raio de ação, pois o reino dos céus é infinito; contudo, elas nada levarão do mundo, nem sua riqueza, poder ou beleza, que não revelam a Deus que é Pureza e Amor como base de suas Satisfações. Wesley costumava perguntar a seus seguidores se estavam dispostos a continuar. O que desejava saber era “se em sua variedade de objetivos eles estavam visando sempre o mais elevado”.

É uma excelente premissa para todos nós.

“Problems of Living” (p. 313) Por J. BRI ERLEY, London, 1903.

 

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