Experiência Mística

Experiência-Mistica

Experiência Mística

Michael A. Pirot, FRC

A experiência mística tem sido classificada como “inefável”. Somente aqueles que experimentaram a consciência da Unidade podem compreendê-la verdadeiramente. A palavra é inadequada para expressá-la. Quando solicitado a descrever a natureza da realidade divina, disse São Bernardo: “Posso explicar aquilo que é inexprimível?”

A consciência unitiva, afirmam os Upanishads, está “além de toda a expressão,” e de conformidade com Plotino, a “visão impede a revelação.”

Por que o místico sente que a palavra é insuficiente para revelar suas experiências transcendentes a outros? E, por quê, se a palavra é um veículo tão falho para descrever a experiência, ele escreve e fala sobre sua experiência com vigor e inspiração?

Em todas as épocas, tanto a literatura dos místicos como a dos profanos tem se ocupado da natureza da consciência unitiva. Obras como os Koans dos budistas Zen e The Cloud of Unknowing, foram criadas como orientação para os aspirantes ao estado de Unidade. Essas, todavia, são apenas interpretações da experiência ou sugestões intelectuais.

O relato usual da consciência mística afirma que a experiência é inerentemente incapaz de ser conceituada. Pode ser conhecida, por experiência, porém, não sumariada em conceitos para a razão. Não podendo ser conceituada, segue-se, naturalmente, que é impossível de ser verbalizada. É ela, portanto, inefável.

Sendo a experiência isenta de teor empírico e amorfa, não há pontos ou objetos mentais perceptíveis. Ela é uma visão do Uno; os conceitos dependem de se ter, pelo menos, uma dualidade. Para que a mente possa conceituar, devem ser notadas similaridades e diferenças entre dois ou mais pontos.

Se o místico formasse um conceito durante sua experiência, este desafiaria a sua consciência unitária. Como afirmou Plotino, “A alma não percebe o Uno quando se entrega aos números e à pluralidade.” Daí, como não há multiplicidade – apenas a unidade na experiência mística, não pode haver conceito e, portanto, palavras.

Richard Maurice Bucke, em Consciência Cósmica, afirma que a palavra é uma função da autoconsciência, um produto do intelecto. A conceituação linguística não é uma função da Consciência Cósmica, do mesmo modo que a realização do Eu não é uma função da simples consciência de um cão. Quando, então, o místico tenta descrever sua experiência, jamais o consegue porque está usando um instrumento da consciência mais inferior para descrever uma experiência relacionada com a consciência superior. Por essa razão, nenhum símbolo pode representar completamente um objeto, desde que os símbolos são, meramente, marcos na consciência. São interpretações da percepção de objetos exteriores ou de objetos mentais e, portanto, arbitrariamente fixados.

O místico sabe, entretanto, que se a sua experiência mística tiver de ser útil no campo tempo-sensação da autoconsciência, deverá ser expressada no viver cotidiano. E, assim, ele interpreta suas inspirações e fala e escreve sobre suas interpretações. Isto é, na verdade, afortunado para a civilização, pois a humanidade não teria atingido seu estado atual caso o místico, no passado, não tivesse transmutado suas experiências em atos da vida comum.

Isso faz do misticismo a mais prática das disciplinas. Voltando-nos para o nosso próprio interior, encontramos inspiração para lançarmo-nos ao que de mais perfeito a vida tem para oferecer. É lastimável que alguns acreditem que a felicidade advém da busca de posses materiais e prazeres transitórios, quando, na realidade, somente o oposto proporciona paz e felicidade.

Assim, embora a experiência mística, por si mesma, seja inefável, o místico seria egoísta se usasse sua inspiração apenas como meio de desenvolvimento pessoal. Interpretando-a e partilhando-a, contribui para a sua própria evolução e a da humanidade.

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