As Mãos: Sua Participação em um Empreendimento Cósmico

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Ettore de Fano, PhD, FRC

Não me lembro de muita coisa relacionada com minha operação porque eu estava anestesiado. Tudo que sei é que quando abri os olhos estava em um compartimento pintado de verde e cercado por médicos e enfermeiros que usavam vestes verdes e máscaras.

Lembro-me, porém, que tive um momento, relativamente lúcido, durante o qual estava narrando, ou imaginava que estava narrando uma história que havia ouvido há longo tempo e da qual somente então me recordei.

Durante a segunda guerra mundial, uma cidade em alguma parte da França foi seriamente danificada por bombardeio. Uma estátua de Jesus, O Cristo, em frente da única igreja que existia, foi derrubada. Os soldados aliados ajudaram na remoção dos escombros e no reparo dos danos. O grupo que trabalhava na igreja recolocou a estátua em seu pedestal, depois de unir com cimento suas partes quebradas. Somente as mãos jamais foram encontradas e a estátua foi colocada em seu pedestal primitivo, sem elas. Na base do pedestal foi colocada uma placa com as seguintes palavras: “Tornemo-nos todos as mãos do Senhor”.

Enquanto eu ali permanecia imobilizado pela anestesia, mãos tinham lidado com instrumentos também feitos por outras mãos. Senti, de maneira muito penetrante, que essas eram mãos de Deus e quando mais tarde as enfermeiras me alimentaram, massagearam e executaram outras tarefas, continuei a sentir que as mãos de Deus estavam em ação.

Com isto, não quero jactar-me por quaisquer experiências que eu possa ter tido. Todos nós já estivemos doentes ou aflitos em uma ou outra época e em nosso abandono a ajuda tem sido reconhecida como provinda da fonte universal. Depois, ficamos impressionados pela nobreza das profissões de médico e enfermeira, assim como pelo trabalho dos técnicos de laboratório, dos aparelhos de exames, pelos atendentes, secretárias e todos os outros que contribuíram para o funcionamento normal da organização.

Nessas ocasiões, o hospital se transforma em mundo para nós. Lá fora um outro mundo, para o qual estamos nos preparando para voltar. Se aprendermos as lições que a doença pode ensinar, tornar-nos-emos um pouco mais puros e, talvez, um pouco mais sábios. Por outro lado, a dor terá atingido o seu objetivo.

Todas as coisas que temos aprendido e que deveremos aprender mais e mais têm um aspecto dual. Qualquer invenção ou técnica poderá ser utilizada para a guerra ou para a paz. O aço é transformado em espadas que ferem e matam, porém é também usado para a fabricação de instrumentos cirúrgicos para salvar vidas. Com nossos interesses e problemas pessoais limitados, esquecemo-nos, de quando em vez, que somos prolongamento de um poder universal e que colaboramos em algo mais importante do que o nosso próprio Eu.

Somos todos colaboradores em um imenso empreendimento e estamos na “folha de pagamento” de Deus. Podemos ser trabalhadores insatisfeitos, queixosos eternos quanto à tarefa que nos foi dada, quanto às horas de trabalho ou quanto aos salários. Podemos não saber exatamente o que estamos fazendo ou por quê. Não obstante, estamos colaborando em um empreendimento Cósmico.

Mentes esclarecidas têm tentado descobrir a maneira pela qual este grande universo é operado. O fato de que os mistérios tornam-se cada vez mais profundos não prova que a investigação seja inútil. Alguma coisa temos aprendido e, o que é mais importante, descobrimos meios para utilizar nossas mãos.

Nenhuma tarefa é menos nobre do que outra, pois na oficina cósmica não há tarefa que não seja essencial. O sucesso de nossa missão individual depende apenas da dedicação e devoção que a ela dispensarmos. Nossa lealdade a uma tarefa dá causa a uma promoção e, então, nossas mãos são elevadas, tão logo para elas nos preparemos.

A falta de mão de obra é mais acentuada nos planos cósmicos mais sublimes. Todavia, quer laboremos em um plano elevado ou inferior, nossas mãos são os instrumentos que devem ser utilizados para servir a todos.

Agradeço-Te, ó Deus, pela compreensão de que, em minha existência, tenho segurado em minhas mãos milhares de outras mãos que, por sua vez, fizeram o mesmo com um número igual de mãos, de modo que foi formada, estendendo-se sobre o globo através dos sete mares, de extremo a extremo e através de todas as barreiras artificiais, de todas as épocas passadas e de todas as que virão, uma imensa cadeia de mãos ligadas e de fraternidade humana, a despeito de todas as aparentes divisões.

 

 

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