A Educação

A Educação

Esta mensagem versa sobre uma questão fundamental para os Rosacruzes que somos, a saber, a educação. Contrariamente ao que poderíamos pensar a priori, esse tema é profundamente místico, porque diz respeito ao futuro que aguarda a humanidade, na medida em que o mundo de amanhã será em grande parte o que as crianças de hoje fizerem dele. A esse respeito, Pitágoras disse: “De todas as artes, a educação é a mais espiritual, porque se aplica às almas em via de evolução e condiciona o futuro da humanidade”.

Podemos dizer que a educação deve ser aplicada em duas esferas principais: a escola e a família. Evidentemente, a educação escolar baseia-se nos ensinamentos e está sob sua responsabilidade direta. Já a educação familiar depende naturalmente dos pais, pois estes são os primeiros a quem os filhos dizem respeito, e deveriam dar-lhes toda sua atenção. Em última análise, cabe a eles a responsabilidade primeira de educá-los. Ora, a julgar pelo estado atual da sociedade, parece evidente que muitos pais não estão assumindo corretamente essa responsabilidade, o que se traduz numa certa forma de decadência moral e cultural. Há, portanto, urgência nessa matéria, pois a História mostra que foi a partir do momento em que a educação foi descuidada que ocorreu o declínio das grandes civilizações do passado. Quanto a isso, lembremo-nos da advertência que Platão dirigiu aos seus concidadãos, na aurora da decadência do povo grego: “Quando os pais se habituam a deixar os filhos de lado, quando os filhos não consideram mais suas palavras, quando os professores tremem diante de seus alunos e preferem adulá-los, quando por fim os jovens desprezam as leis, porque não mais reconhecem acima de si a autoridade de nada nem de ninguém, então, aí está, em todo seu esplendor e vigor, o começo da tirania”.

A educação familiar deve ser aplicada em três níveis: disciplinar, moral e espiritual. A noção de disciplina pode a princípio causar espanto e até mesmo chocar, já que vivemos numa sociedade cada vez mais liberal, para não dizer libertina. Não obstante, as crianças têm necessidade de ser disciplinadas e de obedecer a determinadas regras. Quanto a isso, muitos pais são demasiadamente permissivos e dão aos seus filhos uma liberdade excessiva, no mais das vezes porque eles mesmos não têm referenciais nessa área. Ora, as crianças têm necessidade de limites, porque elas sabem, no mais profundo de si mesmas, que existem coisas que elas podem fazer e outras que elas não devem fazer. Observem, aliás, que elas têm sempre uma tendência a testar os adultos, para determinar até onde podem ir em seu comportamento. É preciso, então, que lhes sejam dados limites, para que possam ter um quadro de referenciais em sua vida cotidiana. Quando deixamos de fazer isso, elas se sentem entregues a si mesmas e cometem toda sorte de excessos, com todos os danos que cedo ou tarde resultam para elas mesmas e para os outros.

Ensinar disciplina às crianças não quer dizer privá-las da liberdade de expressão e ação, pois elas têm necessidade de falar e agir para exprimirem o que pensam e para desenvolverem sua personalidade. Como dissemos, trata-se, antes, de fixar regras de comportamento para elas, explicando-lhes por que essas regras são necessárias e boas. Nesse sentido, devemos sempre dar preferência ao diálogo com nossos filhos, pois a autoridade, em sua aplicação mais nobre, consiste em agir de forma a que eles reconheçam a razão daquilo que lhes é permitido ou proibido fazer, e acatem as regras sem problema. Inversamente, o autoritarismo é nefasto no plano da educação, porque as crianças obedecem então unicamente por medo de serem punidas. Na verdade, a experiência mostra que toda pessoa autoritária comporta-se deste modo justamente porque lhe falta autoridade natural, o que a obriga a se fazer temida ao invés de respeitada.

Em quais áreas as crianças devem ser disciplinadas? Esta é a pergunta que devemos fazer. À guisa de exemplo, parece indispensável ensiná-las a serem pontuais nos horários que lhes dizem respeito, a serem ordeiras e cuidadosas, a ajudarem nas tarefas domésticas, a irem se deitar quando solicitadas a fazê-lo, a não transgredirem as proibições que foram fixadas de comum acordo com elas, a fazerem seus deveres escolares quando os tiverem, a não exigirem nada que não seja merecido ou justificado e assim por diante. Ensinando-lhes esses ditames disciplinares, contribuímos para despertar nelas o senso de responsabilidade e lhes inculcar o fato de que a vida comporta, é bem verdade, direitos, mas também deveres. Em outras palavras, nós as iniciamos ao seu futuro papel de cidadãos. O que nos leva a abordar agora a educação moral que os pais devem dar aos seus filhos.

Em primeiro lugar, é lamentável que a palavra “moral” tenha adquirido uma conotação pejorativa, chegando a ponto de que quem fala nela hoje em dia é considerado reacionário ou retrógrado. No entanto, se consultarem um dicionário, verão que essa palavra é definida como sendo a “ciência do bem e do mal”. Como pode, então, essa ciência ser retrógrada ou estar em desuso? A maioria dos que a consideram assim fazem isto para justificar sua própria amoralidade. Há também pessoas que rejeitam a moral por verem nela certa conotação religiosa que elas reprovam. Nesse caso, nada as impede de substituí-la pela noção de ética. De qualquer forma, ensinar uma criança a ser paciente, tolerante, corajosa, prestativa, amável, honesta etc., só pode lhe ser benéfico em todos os planos. Além disso, essas virtudes são o que contribuem para tornar agradável a vida em sociedade.

Com as observações que fizemos, podemos agora definir o termo “moral”. De modo geral, a moral designa o respeito a si mesmo, aos outros e ao meio ambiente. Em virtude dessa definição mística, é preciso ensinar as crianças a terem cuidado consigo mesmas e a que vão de encontro ao seu bem-estar físico ou mental. Como fazer isso? Zelando para que elas tenham ritmos regulares no comer e no dormir, que não assistam a filmes ou programas que façam apologia à violência ou à vulgaridade, que tenham um equilíbrio entre suas obrigações escolares e seus momentos de lazer etc. Para que as crianças se autorespeitem, os pais devem também cercá-las de todo seu afeto e elogiá-las sempre que fazem algo de bom. Esse ponto é muito importante, pois, se é normal repreendê-las ou mesmo puni-las quando justificado, devemos saber também exprimir-lhes nosso contentamento e até recompensá-las quando merecem. Assim fazendo, nós as iniciamos aos princípios da lei da compensação.

Aplicada ao respeito alheio, a educação moral consiste em ensinar às crianças o senso da gentileza e da prestatividade. Infelizmente, hoje em dia a gentileza é considerada muitas vezes como a expressão de certa ingenuidade ou, pior ainda, como uma forma de fraqueza. No entanto, saber dizer “bom dia”, “por favor”, “obrigado”, “perdão” etc., não tem nada de ridículo nem de debilidade, mas, ao contrário, é uma demonstração do nosso interesse pelos outros e contribui para harmonizar as relações humanas. Da mesma forma, ajudar um cego a atravessar a rua, carregar uma sacola pesada para uma pessoa idosa, dar lugar a uma gestante, um idoso ou um deficiente físico no ônibus etc., são atos cívicos para os quais as crianças devem ser sensibilizadas. Quanto ao respeito que devemos lhes inculcar em relação ao meio ambiente, consiste muito simplesmente em despertar nelas o amor à natureza, a fim de que preservem sua beleza para as gerações futuras. Nessa esfera, todos podem constatar que existe urgência e que a ecologia é uma necessidade.

Depois de termos visto a educação disciplinar e moral que os pais devem dar aos seus filhos, consideremos agora a educação espiritual que é preciso lhes transmitir. Como todos sabem, essa forma de educação não existe nas escolas, pelo menos não nas escolas públicas. Em contrapartida, ela é oferecida nas instituições religiosas, mas, via de regra, limita-se a inculcar dogmas nas crianças e a condicionar sua adesão a esse ou aquele credo. Como Rosacruzes, devemos fazer melhor e iniciá-las verdadeiramente à espiritualidade. Em outras palavras, temos o dever de educá-las na convicção de que possuem uma alma e que a missão de sua vida consiste em aperfeiçoar esta alma. Isso implica sensibilizá-las para os valores morais mencionados anteriormente e explicar-lhes por que razão o respeito a esses valores contribui necessariamente para sua felicidade. Em contrapartida, não devemos jamais cometer o erro de obrigar nossos filhos a aderirem à filosofia rosacruz ou, como se costuma dizer, “entrar para a Ordem”.

Para inculcar nas crianças o desejo de aperfeiçoar sua alma, devemos primeiramente explicar-lhes o porquê de ser necessário e meritório que elas se comportem com dignidade no plano humano. Isso implica ajudá-las a tomar consciência de seus defeitos e estimulá-las a corrigi-los. Por exemplo, se uma criança tende a ser ciumenta, egoísta, orgulhosa, etc., devemos, com amor, compreensão e pedagogia, mostrar-lhe que, se persistir nesse comportamento, ela vai atrair tristezas para si, não terá amigos e nunca será verdadeiramente feliz. Paralelamente, devemos felicitá-las regularmente pelas qualidades que manifestam na vida diária, para que tenham uma autoestima saudável e continuem sendo desprendidas, generosas, humildes etc. De modo geral, temos o dever de ajudá-las a ver a diferença entre um comportamento que é essencialmente bom e um comportamento que é essencialmente mau, o que implica definir junto com elas o sentido geral que um místico pode dar ao bem e ao mal.

Enfim, para que a educação espiritual das crianças seja completa, é preciso que os pais inculquem nelas a fé em Deus, conforme os místicos O concebem, isto é, enquanto Inteligência impessoal que criou o universo, a natureza e o ser humano, segundo leis imutáveis e perfeitas. Da mesma forma, é preciso mostrar a elas que todas as religiões são respeitáveis, ainda que nenhuma delas detenha o monopólio da Verdade. Nessa esfera, o melhor é cultivar nelas a tolerância e explicar-lhes que um dia vai existir uma Religião Universal. Paralelamente, é preciso estimulá-las a buscar o Deus de todos os seres humanos no mais profundo de si mesmas, pois nunca O encontrarão nos Livros Sagrados e menos ainda nos credos que saíram deles. Em suma, é preciso fazê-las compreender que a verdadeira espiritualidade é a que tiramos de dentro de nós e aplicamos em prol dos nossos semelhantes. Agindo dessa forma, faremos dos nossos filhos cidadãos do mundo, plenos de tolerância, fraternidade e humanismo.

A condição primordial em matéria de educação consiste em darmos aos nossos filhos o exemplo do comportamento que desejamos inculcar neles. Com efeito, nós somos o referencial cotidiano deles. Assim sendo, como esperar que eles sejam pontuais, ordeiros, corteses, prestativos, tolerantes etc., se nós mesmos não o somos? Naturalmente, ninguém é perfeito e o papel do educador é difícil, mas devemos nos esforçar em ser o mais fiel possível ao nosso ideal de educação e o tempo todo ter em mente que nossos filhos são almas que Deus nos confiou. Lembremo-nos sempre de que nosso dever de adultos é o de educá-las, no sentido místico do termo, isto é, no sentido de elevar sua consciência aos ideais espirituais e humanistas. Esta é nossa primeira missão enquanto Rosacruzes.

 

* URCI – Universidade Rose-Croix Internacional da Jurisdição de Língua Francesa

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