Dominar o ego e encontrar a alegria de viver

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Dominar o ego e encontrar a alegria de viver

Paule Lefebvre

No começo de nossa vida, basta olhar um recém-nascido para se convencer de que vivemos nossa existência de maneira serena na simples alegria de existir. Essa atitude, que é do eu natural, vai pouco a pouco ceder espaço para outra faceta, o eu condicionado: o ego. Por causa de nossa identificação com o ego, vivemos separados do nosso ser essencial, e isto é uma fonte de angústia e de estados negativos que acompanham esse sentimento: apreensão, estresse, aflição; e onde há conflito, há dor! Torna-se urgente então dar um passo atrás.

É forçoso constatar: nossa cultura do “ter” não nos deixa felizes! Sim, o mundo em que vivemos é terrível. A crise e as guerras nos fazem perder a esperança na humanidade de hoje. Todavia, e sabemos disso, existem ilhotas de bondade e de força espiritual: elas sequer falam de si – simplesmente existem e agem para o bem. Aqueles que fazem o mal são naturalmente infelizes – sofrem – e devem mais ser objetos de piedade do que de condenação! Um homem pessimista vê em toda parte no mundo sinais negativos que confirmam seu pessimismo. Um otimista vê em toda parte no mundo sinais de esperança que confirmam seu otimismo. A força dessas convicções chegará até a produzir os acontecimentos que as confirmarão!

Viver é uma arte. É preciso aprender a viver, adotar as atitudes justas para progredir e se realizar plenamente e fugir dos extremos. A sabedoria está na medida e na sutileza. O mundo não é para ser conquistado e nem tampouco desdenhado! Aproveitemos aquilo que a vida nos oferece de agradável, mas não nos prendamos a isso de maneira excessiva. Estejamos prontos para perder o que nos foi dado. Essa atitude justa nos dá aquilo a que se chama “equanimidade”: uma distância serena face aos acontecimentos da vida, sejam eles agradáveis ou dolorosos. As emoções não nos submergem mais ao ponto de nos fazer perder o amor e a alegria de viver. A ansiedade diante do abandono dos velhos esquemas comportamentais corresponde a um medo do desconhecido e do renascimento que se segue. A identificação com o ego desaparece quando se aprende a identificar a si nos planos mais profundos, pois o ego nos mantém sob seu jugo fazendo-nos crer que somos impotentes e indefesos.

Deixemos então de ser cegados pelo sol do ego! A superação do nosso ego é fonte de alegria – a forma de energia mais forte que existe. É verdade que o egoísmo é difícil de ser desenraizado, pois ele resulta da influência da matéria, da qual o homem ainda não pôde se libertar, e tudo concorre para a manutenção dessa influência. O egoísmo será enfraquecido com a predominância da vida espiritual sobre a vida material. O egoísmo se funda na importância que se dá à personalidade, sobre a qual deveríamos trabalhar incessantemente, mas é preciso passar da consciência egoica à consciência universal – eis um bom projeto pessoal! A consciência egoica é dual: existe o “eu” e o mundo. A consciência universal é não-dual: não há mais separação entre “eu” e o mundo! Quanto mais a vida é centrada no “eu” e no “meu”, mais ficamos inquietos, pois o ego acredita que é bom ter sempre mais. O esquecimento do eu faz nascer a alegria – uma alegria comum e partilhada. Em cada um há aquele que sabe. Procuremo-nos e seremos libertados.

Aprendamos a acolher e amar nossas fragilidades. A falha do ser é a abertura pela qual a vida nos une uns aos outros por amor. Todo ser é dotado de um dom que lhe permite ser um apoio, um consolo ou uma luz para os outros. Contudo, tem também uma fenda e uma fragilidade que reclamam a ajuda de outrem! “Rompamos os grilhões do egoísmo para que possamos desaguar no oceano da humanidade e partilhar de sua dignidade”, nos propõe Gandhi.

Algumas etapas são necessárias para se transformar e, dessa forma, melhorar o mundo: a tomada de consciência, o domínio do ego, a elevação da consciência – o que significa prestar atenção com doçura apreciando o momento presente, o amor próprio e o amor pelos outros. Tudo isso permite que se vá dessa forma ao nascimento do Eu. Desenvolvamos esse “programa” sabendo que ele só pode se exprimir se for ativado. Não “acreditemos” nisso, mas “sejamos” isso, e participemos da dança radiosa da vida!

Cultivemos o maravilhamento e o entusiasmo e não cessemos jamais de admirar a beleza, a harmonia e a bondade do mundo. Não deixemos jamais de nos interrogar, como crianças curiosas de tudo: o deslumbramento é o princípio da sabedoria, pois ele nos leva a nos questionarmos e a descobrir o invisível por trás das coisas visíveis. Saltemos de alegria, como uma criancinha, ao sabermos de uma boa notícia, e percebamos o mundo com os olhos dela, sem tentar explicar tudo! Na realidade, temos mais do que doze anos em nossa cabeça? Tomemos consciência da chance que temos de existir. Cada provação deveria ser a oportunidade de nos descobrirmos e de nos redefinirmos para melhor ocupar a vida e amá-la.

Nem todos temos a mesma facilidade para fazer vibrar a alegria de viver, haja vista nossos históricos familiares, nossas experiências, nossas condições de vida… mas todos temos o dever de, como diria o filósofo Alain, alimentar essa alegria de viver! Cultivemos o bom humor, a jovialidade e o humor. Nada é pior do que um homem sem humor, que só vê na existência a seriedade, o trágico ou o útil. O humor não serve para nada, mas não há nada mais indispensável para uma existência feliz. O humor não nega o trágico, mas o desvia, cria um recuo da dor e pode transformar as lágrimas em riso. Tentemos rir todos os dias, começando por rir de nós mesmos!

Busquemos o júbilo: uma boa ideia a se concretizar. Com a alegria, existe criação; quanto mais rica a criação, mais profunda a alegria. A alegria profunda é felicidade. Não nos esqueçamos de que a felicidade e a infelicidade estão em nosso interior. Tomemos consciência de estarmos vivos, celebremos a vida, agradeçamos por estarmos lá, sabendo que um dia não mais estaremos, sejamos tranquilos e pacíficos – eis aí uma boa receita para se consumir sem moderação! Você aceitaria um pouquinho? Concedamo-nos uma alegria de viver permanente com uma vida espiritual bem repleta: a vida assume então uma dimensão imensa e cada instante é vivido completamente!

Deixemos de nos sentir constantemente ofendidos: não poderemos evoluir se a todo o momento estivermos magoados. Evitemos querer sempre ganhar. O ego adora nos dividir em ganhadores e perdedores. Assim sendo, libertemo-nos de nossa necessidade de superioridade. A verdadeira nobreza não consiste em nos sentirmos superiores aos outros, mas sim superior àquilo que fomos no passado. Da mesma forma, desapeguemo-nos de nosso desejo de ter sempre mais. Pouco importa aquilo que conseguiremos ou adquiriremos, pois o ego ainda insistirá em dizer que não é o suficiente. Portanto, deixemos de nos identificar com nossas conquistas. Esse conceito pode parecer difícil se pensarmos que somos aquilo que obtivemos. Porém, quanto menos sentirmos necessidade de nos atribuir méritos, mais estaremos em contato com a intenção de evoluir. Libertemo-nos efetivamente de nossa reputação: não é em nós que ela reside, mas na mente – a nossa mente e a das pessoas que nos rodeiam. Por conseguinte, não temos nenhum controle sobre ela. Escutemos antes o nosso coração e reajamos com fé naquilo que nossa voz interior nos revela quanto à razão de nossa presença neste plano.

Vasto programa, mas vale a pena! E se ousássemos? O resultado é a alegria, uma dilatação do ser; a alegria vinda do interior inunda totalmente aquele que a sente. É uma força imensa, capaz de coisas grandes – muito grandes. Ela explode no interior do ser e se expande amplamente. A alegria transporta a vida – a alegria de viver. Todo o corpo exulta e quando momentos difíceis se apresentam ela permite que se resista e, sobretudo, que se utilize as “reservas de alegria” para suplantar esses momentos! A alegria nutre a consciência e a eleva para onde não há mais separação. Os seres jubilosos iluminam os outros que os rodeiam.

A alegria é o triunfo da vida naquilo que ela é. É a experiência mais forte que nos é dado viver. Tomemos então a vida pelo lado bom, aprendamos a “cultivar” emoções positivas, protejamo-nos conservando distância e nutramo-nos de “pequenos prazeres” para reforçar nossa “capital alegria de viver”. Lembremo-nos: um programa só funciona se for ativado.

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