Conto de Natal

conto-natal

Conto de Natal

Por que repicavam os sinos?

Raymond M. Alden

Havia em determinada época, em um país muito distante que poucas pessoas conheciam, uma igreja maravilhosa. Estava situada em uma alta colina no meio de uma grande cidade, e todos os domingos, assim como nos dias santificados como o Natal, as pessoas subiam a colina em direção às suas arcadas, parecendo fileiras de formigas que se movimentavam em sua direção.

Ao se chegar ao edifício, era possível notar colunas de pedra, passagens escuras e um grande vestíbulo que levava à nave principal da igreja.  Esta nave era tão comprida que uma pessoa que se situasse na entrada dificilmente poderia ver a outra extremidade onde o coro estava instalado ao lado do altar de mármore. Na parte mais distante, estava o órgão. Esse órgão emitia som tão forte que muitas vezes, ao tocar, as pessoas a milhas de distância fechavam as janelas e se preparavam como se um grande temporal fosse desabar. Igreja semelhante a essa jamais havia sido vista, especialmente quando estava iluminada para alguma festividade e repleta de pessoas de todas as idades. Todavia, a coisa mais singular com respeito a todo o edifício era o maravilhoso repicar dos sinos.

Em uma das extremidades da igreja havia uma grande torre cinzenta, recoberta de hera que sobre ela havia crescido até a altura que se podia divisar. Digo até o pomo que se podia divisar porque a torre era realmente muito alta para manter proporção com imensa igreja, e se elevava tão alto no céu que somente em tempo muito bom é que alguém poderia afirmar ter podido ver a sua ponta. Então, ninguém poderia estar seguro de que ela era visível. Mais e mais para o alto, as pedras e a hera se elevavam; e, como os homens que construíram a igreja tinham morrido há centenas de anos, todos tinham se esquecido da altura que a torre devia ter.

Todas as pessoas, no entanto, sabiam que no alto da torre havia um carrilhão de Natal que fora instalado quando terminou a construção da igreja, e que era o mais lindo carrilhão do mundo.  Alguns pensavam que isto era devido ao fato de que um grande músico havia fundido os sinos e planejado a sua colocação. Outros diziam que era devido à grande altura em que estavam os sinos, onde o ar era mais rarefeito e mais puro; fosse como fosse, porém, ninguém que tivesse ouvido o som dos sinos poderia negar que era o som mais doce do mundo. Algumas pessoas descreviam-no como semelhante à voz dos anjos; outras, como o som de ventos peculiares sibilando através das árvores.

Acontecia, porém, que ninguém havia ouvido o repicar dos sinos há muitos anos. Um ancião que vivia perto da igreja contava que sua mãe havia mencionado tê-los ouvido quando ainda era moça, e ele era a única pessoa que disso tinha certeza. Tratava-se de um carrilhão de Natal e, assim, os Sinos não deveriam ser repicados pelos homens ou em dias comuns. Era costume na véspera de Natal, todas as pessoas levarem à igreja suas oferendas ao Menino-Deus; quando a melhor e mais nobre oferta era colocada sobre o altar, costumava-se ouvir, misturado com a música do coro, o som do carrilhão de Natal no alto da torre. Alguns diziam que o vento fazia com que os sinos repicassem, e outros que eles estavam tão altos que os anjos podiam fazê-los badalar. Todavia, durante muitos anos o seu som não havia sido ouvido. Dizia-se que as pessoas haviam se tornado cada vez menos preocupadas com as oferendas para o Menino-Deus, e que nenhuma das ofertas feitas era suficientemente importante para provocar a música do carrilhão.

Toda véspera de Natal, as pessoas abastadas ainda se amontoavam no altar, cada uma procurando fazer a melhor oferta que a outra sem se desfazer daquilo que realmente queriam para si mesmas, e a igreja estava repleta de pessoas que pensavam que talvez os maravilhosos sinos pudessem, uma vez mais, ser ouvidos. Todavia, embora o serviço fosse esplêndido e inúmeras as oferendas, apenas o sibilar de vento podia ser ouvido no alto do campanário.

Poucas milhas distantes da cidade, em um pequeno povoado onde nada poderia ser visto da grande igreja exceto vislumbres da torre quando o tempo estava bom, vivia um menino chamado Pedro, e seu irmãozinho.  Eles muito pouco sabiam a respeito do carrilhão de Natal, porém tinham conhecimento do serviço religioso da véspera de Natal, e conceberam um plano secreto que frequentemente haviam discutido quando a sós, para ir assistir a deslumbrante celebração. “Ninguém pode Imaginar, irmãozinho”, Pedro repetidas vezes dizia, “todas as coisas lindas que lá se pode ver e ouvir. Chequei mesmo a saber que o Menino-Deus algumas vezes desce para abençoar o serviço. Que bom seria se pudéssemos vê-lo, não?”

A véspera de Natal foi um dia de frio rigoroso, com uns poucos flocos de neve isolados esvoaçando pelo ar e uma dura crosta branca no chão. Cheios de determinação, Pedro e o irmãozinho silenciosamente escapuliram nas primeiras horas da tarde e, embora a caminhada fosse penosa com o ar muito frio, antes do anoitecer haviam caminhado tanto, de mãos dadas, que podiam ver as luzes da grande cidade à sua frente. Estavam, na verdade, para cruzar um dos grandes portões da muralha que a circundava, quando viram algo escuro sobre a neve perto do caminho em que se achavam e para lá encaminharam-se para ver o que era.

Encontraram, então, uma pobre mulher que havia caído às portas da cidade, por demais doente e cansada para que pudesse nela penetrar e procurar abrigo. A neve macia fez de um monte uma espécie de travesseiro para ela, e cedo ela adormeceria profundamente no ar gelado e ninguém mais poderia acordá-la. De tudo isto Pedro se apercebeu em um instante.  Ajoelhou-se ao lado da mulher, procurou animá-la puxando um pouco seu braço, como se tentasse fazê-la andar. Voltou o rosto da mulher em sua direção para poder retirar a neve que sobre ela caíra, e quando olhou fixamente para ela por um instante, ficou de pé e disse

– Não adianta, irmãozinho, você terá de ir só.

– Só? – Indagou o irmãozinho. – E você não vai assistir à festa de Natal?

– Não – Respondeu Pedro sem poder controlar a emoção que lhe embargava a voz.

– Olhe para esta pobre mulher. Seu rosto parece o da madona que está no vitrô da capela, e ela morrerá de frio se ninguém dela cuidar. Neste momento, todos Já devem estar na igreja, porém quando você voltar deverá trazer alguém para socorrê-la. Vou friccioná-la para evitar que ela fique gelada, e tentar fazê-la comer o doce de passas que tenho no bolso.

– Mas eu não posso me separar de você e ir sozinho! – disse o irmãozinho.

– Não é necessário que nós dois deixemos de assistir o serviço – retrucou Pedro – e é melhor que fique eu do que você. Você facilmente chegará à igreja e deverá ver e ouvir tudo em dobro, irmãozinho, uma vez por você e outra por mim. Estou certo de que o Menino-Deus deve saber como me sentiria em ir com você para adorá-lo, e, ouça, se tiver possibilidade, irmãozinho, dirija-se ao altar sem ser visto e sobre ele coloque esta pequena moeda de prata como minha oferenda. Não se esqueça de onde estou e perdoe-me por não o acompanhar.

Com essas palavras, apressou o irmãozinho para que se dirigisse à cidade e piscou muitas vezes para conter as lágrimas ao ouvir cada vez mais fraco o ruído de suas passadas na hora do crepúsculo. Era muito doloroso perder a música e o esplendor das festividades de Natal com que durante longo tempo havia se preocupado, e passar o tempo naquele local solitário, na neve.

A imensa igreja estava deslumbrante naquela noite. Todos diziam que ela jamais havia parecido tão esplendorosa e bela. Quando o órgão tocava e milhares de pessoas cantavam, as paredes tremiam com a vibração, e o pequeno Pedro, distante dos muros da cidade, sentiu a terra tremer ao seu redor.

Ao término do serviço, começou a procissão com as oferendas a serem depositadas no altar.  Homens ricos e grandes homens caminhavam imponentemente para oferecer seus presentes ao Menino-Deus. Alguns traziam joias maravilhosas, outras cestas de ouro tão pesadas que dificilmente podiam carregar através da nave da igreja. Um grande escritor depositou o livro que estivera escrevendo durante o ano. E, finalmente, chegou a vez do rei do país, que esperava, como todos os demais, provocar o repicar do carrilhão de Natal. Um prolongado murmúrio fez-se ouvir na igreja quando as pessoas viram o rei tirar da cabeça a coroa real, toda incrustada com pedra preciosas, e colocá-la sobre o altar como sua oferenda ao Menino-Deus. “Certamente” diziam todos “iremos ouvir agora o carrilhão, pois nenhuma oferenda comparável a esta foi feita antes”.

Não obstante, somente o frio e costumeiro vento era ouvido na torre, e as pessoas balançavam a cabeça. Algumas delas diziam, como já tinham dito antes, que jamais realmente acreditaram na história do carrilhão, e tinham dúvidas se os sinos jamais chegaram a repicar.

A procissão terminou e o coro deu início ao hino de encerramento.  Subitamente, o organista parou de tocar, e todos dirigiram o olhar para o velho ministro que estava de pé ao lado do altar pedindo silêncio. Nenhum som podia ser ouvido, partindo de qualquer uma das pessoas presentes, porém quando todos se concentraram como que para ouvir algo, fez-se ouvir suave, porém distintamente, através do ar, o som do carrilhão da torre. Tão distante e, não obstante, tão clara parecia a música, tão mais doces eram a notas do que qualquer outra coisa que antes tivesse sido ouvida, elevando-se e perdendo-se no céu, que as pessoas permaneceram sentadas, tão imobilizadas como se algo retivesse cada uma delas pelos ombros. Em seguida, levantaram-se todas ao mesmo tempo, e concentraram o olhar exclusivamente no altar para ver qual a importante oferenda que havia despertado os sinos há muito silenciosos.

Todavia, tudo o que os que mais perto se encontravam puderam ver foi o irmãozinho que, cautelosamente, caminhara pela nave da igreja quando ninguém estava olhando e havia depositado a pequena moeda de prata de Pedro sobre o altar.

Compartilhar/strong> Artigo

Sobre o Autor

Comentários

Comments are closed.