Carência

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Ceslawa Nycz, FRC

Todos nós sofremos deste aparente mal. Que se entende comumente por carência? Falta. Uma falta que dizemos ser de amor, de compreensão, de companhia, de amigos, de certos confortos e, em certos casos, até de coisas vitais para a sobrevivência, como alimento e agasalho.

Então temos o “menor carente”, o “idoso carente”, o “carente afetivo” e assim por diante – uma humanidade inteira sofrendo eternamente de alguma carência.

Certa vez, mergulhada no silêncio interior, senti pensamentos esvoaçarem ao meu redor, sussurrando coisas sobre o grande problema da carência. Lembro-me bem que, naquele dia, eu havia me sentido particularmente “carente”.  Envolvida, quem sabe, por vibrações negativas a que não soube reagir devidamente, senti a mágoa profunda de viver sempre aspirando, sempre desejando, e poucas vezes vendo completamente satisfeitos esses inúmeros desejos e aspirações.

Senti urna certa revolta e me aproximei do mais perigoso dos abismos: a autopiedade. Mas, impulsionada pela inspiração e sabedoria que irrompem do interior, do verdadeiro Eu, que costumam vir em nosso auxílio em horas de perigo, consegui dominar o doce e enganoso apelo da pena de mim mesma. “Conta tuas bênçãos”, ordenou a voz silente, e uma grande vergonha tomou conta de mim, pois as dádivas que se derramam continuamente sobre cada ser humano são infinitas e se vestem de glória: o ar que respirarmos, a gratuidade do colorido das flores, os ipês em flor explodindo em dourados cachos contra o profundo azul de um céu de primavera, o magnífico templo que é o nosso corpo, enfim, o privilégio de viver e experimentar, aprender, evoluir, procurar e encontrar respostas e caminhos.

Naquele mesmo dia, entrei humildemente em minha sala de estudos, em meu Sanctum do Lar, para meditar sobre a carência, companheira perene do homem. Somos todos carentes, pensei.  O mais feliz e amado dos seres sempre sente sede de mais amor e carinho; o bebê recém-nascido se agita e chora, já carecendo de aconchego, de alimento, de tantas coisas; o filho mais bem cuidado e amado sempre deseja algo mais, não se satisfaz com o que recebe, por mais generosa que seja a sua cota de amor e segurança, e assim encontramos, em todas as épocas da História, a mesma revolta das gerações mais jovens que se sentem rejeitadas e incompreendidas. E os adultos? Aspiram a tantas coisas! Uma casa nova, um emprego melhor, uma joia de preço, uma boa educação para os filhos, sucesso, juventude, glória. Os velhos que já contemplam a morte sentem que deixam a vida com algo que lhes faltou, nunca se sentem totalmente realizados. Sempre a falta, a angústia, sem que se possa precisar exatamente o que seja. Os pensamentos me vinham rápidos e eu os seguia interessada, intrigada, querendo saber o porquê dessa constante inquietude do ser humano.

Aos poucos foi se formando um quadro bem claro sobre o assunto.  Num sutil vislumbre de luz, compreendi. Ao compreender, passei a ser mais feliz, mais capaz de enfrentar as experiências, ensinamentos e “carências” da vida com tranquila coragem. A carência é parte inseparável do humano viver. Qualquer pessoa que diga: “Estou plenamente realizada, tenho tudo que desejo, sou completamente feliz”, não diz a verdade, ainda que disto não se aperceba, pois em breve estará buscando algo mais que mascare o tédio inevitável da posse de tudo aquilo que desejou.

Pensamos que carência é falta de alguma coisa que viria completar ou aumentar nossa felicidade e a interpretamos como a necessidade de coisas terrenas: afeto, segurança emocional, dinheiro, viagens, um casamento feliz, o filho recebendo o diploma de doutor; ou simplesmente um prato de comida, essa “carência” se adapta às necessidades do carente. Assim, o que tem riqueza e afeto, passa a querer mais daquilo que já tem, pois, a satisfação de possuir coisas é fugaz e logo passa a ser o desejo por algo mais caro, mais belo, maior, mais intenso; o pobre, o abandonado, deseja um teto ainda que humilde, alimento, satisfação de necessidades básicas; se ele as obtiver e se tornar próspero, desejará o mesmo que os ricos desejam: mais disto, mais daquilo, e assim por diante.

Vivemos nos queixando de nossas carências e a mais comum é a “carência afetiva”. Queremos, precisamos de amor. Esta foi a palavra-chave que me abriu os olhos na ocasião que tento descrever: Amor-saudade. É isto! Pensei. Saudade – saudade do Pai, da Unidade que um dia foi nossa e que perdemos e para a qual estamos voltando pelo penoso caminho do aprendizado lento e difícil, em busca da perdida sabedoria que pode transformar a dor em alegria, a caminhada penosa em célere cavalgada em direção à perdida Luz.

Senti que a carência é apenas saudade do que fomos, o desejo de voltar a ser parte do Uno, do Todo, do Absoluto, do Pai. O termo “saudade do Pai” me pareceu tão adequado e bonito que o adotei para expressar o significado da carência humana, tal como o experimentei. É um sentimento que vem sendo erroneamente interpretado como “necessidade de coisas que nos façam mais felizes”. Se aceitarmos a ideia tão luminosa de que é apenas o anseio de “voltar para casa”, tudo será mais fácil! Tudo que possuímos ou com que nos deleitamos, acaba por nos causar tédio, após a alegria inicial. Para sobrepujar esse tédio, passamos a desejar algo mais e, como diria Schopenhauer: “A satisfação nunca satisfaz”.

No entanto, pensemos no que sentimos quando nos doamos de alguma forma, quando ajudamos alguém que pede auxílio, quando damos de nosso tempo para o benefício de outrem, quando, enfim, praticamos o bem altruisticamente, com discrição e em silêncio, mentalizando a cura de um doente, por exemplo, perdoando uma ofensa, ou vencendo nossas tendências mais grosseiras, tentando dominar nosso lado negativo de maneira digna e sincera. Como nos sentimos divinamente gratificados! Como é doce o sentimento de não-carência, de duradoura alegria. Por que é assim? Porque este é o único meio de satisfazer a Grande Carência, tão mal traduzida como “desejo de coisas e afetos mundanos”.  Porque este é o único meio de darmos mais um passo em direção à Casa do Pai, ao Seio do Pai.

Depois que compreendi esta sublime verdade, tive o impulso de partilhá-la com todos os meus irmãos na face da Terra. Se todos compreendessem, como seria leve e tranquilo o Retorno!  Ninguém mais se queixaria do pouco que não possui para louvar e deleitar-se com as dádivas que constantemente recebe o estigma da autopiedade, que tanto dificulta a caminhada, seria substituído pelo amor altruísta.

A Grande Carência nos acompanhará até o final da Grande Jornada, mas se a compreendermos coabitaremos com ela alegremente pois saberemos que representa um sagrado impulso de amor e saudade, um meio que nos impulsiona em direção ao Fim que desejamos interiormente, e que é parte inerente de nossa experiência terrena.

Aceitando-a como parte sagrada e inalienável da vida, não mais sofreremos tanto por desejos e aspirações cujo valor é pequeno e transitório. Veremos a luta pela vida, pelo progresso material, em sua real perspectiva. Continuaremos a desejar coisas que nos tragam satisfações terrenas e a trabalhar por elas, mas sem angústia, sem ansiedade, sem receios, pois saberemos que são apenas pálidos reflexos de Grande Carência, da Grande Saudade. Esta sim, merece o nosso melhor esforço em ser satisfeita, pela evolução, crescimento e firmeza na Senda que leva ao Pai.

Esta certeza nos trará uma grande paz interior e nos fará sentir menos peso da Cruz e muito mais intensamente o perfume da Rosa.

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