A Lição da Natureza

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A Lição da Natureza

Dineu Alves de Almeida, FRC

Certa vez, joguei algumas sementes de mamão papaia na borda do meu quintal, sem a menor preocupação de que fossem ou não brotar os mamoeiros. Se brotassem, tudo bem. Se não, tudo bem também. Mas uma delas brotou e teve início o crescimento de um mamoeirinho, que rapidamente empreendeu a sua fase de crescimento e, já com a altura de aproximadamente dois metros, começou a apresentar os seus frutos.

A partir daí, como o solo não era de boa qualidade, havendo nele muito cascalho de demolição de paredes e pouquíssima terra, as suas folhas começaram a cair, enquanto os mamõezinhos continuaram a crescer. As folhas foram caindo até não restar sequer uma delas, ficando apenas aquele espigão apontando para o céu, com os mamões agarrados ao seu tronco. Havia também muita sombra no local, proveniente das outras árvores circunvizinhas, o que dificultava a fotossíntese.

 Nenhuma importância dei ao mamoeiro. Na verdade, desprezei-o, ignorei-o, achando que estava doente e que de nenhuma serventia seria. Acho até que por preguiça deixei de decepá-lo para desocupar o local. O fato é que o larguei de lado, sem a menor consideração. Não regava, não adubava, nada fazia para que ele se desenvolvesse saudável. Os seus mamõezinhos cresceram até o tamanho correspondente à metade de um mouse de computador e permaneceram assim, ridículos, aguardando não sei o quê, agarrados àquele espigão sem folhas.

Hoje, para minha surpresa, varrendo o quintal, deparei-me com um dos mamõezinhos maduros e os outros quatro em processo de amadurecimento. Ainda assim, desprezei-os, aqueles mamões minúsculos, que para nada serviriam, que deveriam ter um gosto horrível, e, não sei porque, movido sabe-se lá por que força, colhi o que estava maduro e coloquei-o na mesa da varanda. Todos olhavam para “aquilo” sem o menor interesse e também com todo o desprezo.

Chegada a noitinha, novamente me deparei com ele na mesa da varanda e, outra vez, movido por alguma curiosidade estranha, resolvi pegar uma faca e abri-lo no sentido longitudinal e, mais surpreso ainda, verifiquei que o seu interior continha sementes, pouquíssimas, é verdade, mas sementes! O aspecto de sua polpa era normal, apesar de diminuta a fruta. Mais impulsionado ainda, peguei uma colherinha de café, retirei as poucas sementes, colhi sua polpa e levei-a à boca, um tanto e quanto desconfiado e preparado para lançar fora tão logo constatasse o sabor, que deveria ser horrendo.

Qual nada! O sabor era dulcíssimo, deixando a mim e a minha mulher perplexos diante daquela constatação. Havia muita doçura naquele pequeno projeto de fruta, de modo a comparar-se com os melhores frutos dos que compramos nos mercados, mesmo sendo uma frutinha de tamanho insignificante. Não sei de onde aquele mamoeiro conseguiu retirar tanta doçura do solo impróprio e depositá-la no seu rebento. Aquilo me causou uma certa alegria, naquele momento.

Mas depois, durante o banho, pus-me a pensar no ocorrido. Comecei a refletir sobre o esforço supremo que fez aquele jovem mamoeiro, primeiramente procurando crescer naquele ambiente e solo inóspito, sem que eu, seu proprietário, jamais tivesse tido o cuidado de acrescentar-lhe mais terra e adubo, para que se desenvolvesse forte e sadio. E depois, por ver-se obrigado a lançar fora suas folhas, abrindo mão da fotossíntese, fundamental para seu crescimento e sobrevivência, em favor do crescimento dos seus frutos, o que, afinal, não resultou em pleno êxito e me senti emocionado, muito emocionado

E da emoção, fui passando à vergonha. Aquele jovem e raquítico mamoeiro, no curto tempo da sua existência, reuniu toda a sua força e determinação, com o intuito de doar-me o melhor de si o pouco que, em face das circunstâncias, poderia me doar, mas ainda assim, o melhor de si!… Lágrimas rolaram-me pela face, ao intuir que, conquanto aquele sofrido ente da natureza, maltratado e rejeitado, tenha cumprido com louvor a sua nobilíssima e quase impossível missão, eu, com quase sessenta anos, apesar de toda a ajuda divina, que tudo colocou ao meu dispor, ainda estou longe de cumprir a minha, de fazer a minha doação em favor da humanidade.

Nasci com dons e facilidades para desenhar e, desde a mais tenra idade, já fazia desenhos que deixavam estupefatos meus pais e irmãos, tão grande era a minha capacidade de observação e retenção na memória dos fatos cotidianos da vida. Poderia ter estudado desenho, escultura e pintura e me tornado um grande artista plástico, produzindo obras maravilhosas, deixando após minha existência terrena algo que pudesse contribuir para o engrandecimento das artes plásticas. Até hoje nada de interessante fiz.

Também tenho dons e facilidades para aprender música e tocar instrumentos musicais, ou como se diria popularmente, tenho “bons ouvidos”, de modo que aprendi sozinho a tocar – não muito bem, esclareço – um teclado de 61 teclas, interpretando muitas das músicas de que mais gosto. Poderia ter então ingressado numa escola de música, aprendido teoria musical com afinco, e me tornado um grande músico, com capacidade para compor lindas melodias, arranjos, executar com virtuosidade obras consagradas de outros autores ou conduzir com esmero e muita emoção grandes orquestras. Nada disso aproveitei, até agora.

Facilidade imaginativa e para escrever é o que não me falta.  Já poderia ter escrito livros, poemas, poesias, romances e muitos artigos que levassem mensagens construtivas a quem se dispusesse a lê-los, se possível influenciando beneficamente toda a humanidade. Nada escrevi, até o momento, que fosse digno de nota.

Daí então a minha vergonha, diante daquele aparentemente pobre mamoeiro. Ele não me doou apenas o seu diminuto fruto doou-me muito mais do que isso: deixou-me uma grande lição e acendeu em meu âmago o desejo ardente de também doar o melhor de mim para a humanidade, sem esperar retorno, como ele fez. Seja sob a forma de artes plásticas, musicalidade ou livros, mas coisas que eu mesmo faça, sejam elas grandes obras ou não, mas feitas por mim, segundo o melhor de mim, enquanto eu puder fazê-las, mesmo que não me resultem em ganhos materiais pessoais. Vou me valer da aposentadoria e decididamente ingressar em cursos de pintura, teclado e começar a escrever meus livros.

Intuí então a resposta à minha questão, segundo a qual queria saber de onde retirara o mamoeiro tanta força e doçura do solo pedregoso: simplesmente ocorre que a natureza é a manifestação física de Deus e, apesar de toda a dificuldade e contratempo com que temos nos oposto a ela, a Força Divina exerce a Sua magnitude e nos demonstra a Sua presença.

Perdoe-me, meu grande mamoeiro, por ter-me pretendido ser tão maior que você. Perdoe-me, Deus, por não ter de imediato vislumbrado a Sua presença naquele mamoeiro que tão eficientemente me ensinou imensa e inesquecível lição.

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