A Influência do Poder

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A Influência do Poder

Alexander F. Skutch

Como seres humanos, somos animais sociais e raramente conseguimos sobreviver sem o apoio de nossos companheiros da mesma espécie. No entanto, desde o início dos tempos, são exatamente nossos companheiros seres humanos que nos causam mais sofrimento do que qualquer outra coisa em nossa experiência total. Provavelmente não seria um exagero dizer, como disse o contemporâneo de Aristóteles, o filósofo e intelectual, Dicearco (350-285 a.C), que os próprios homens são os responsáveis por mais miséria humana do que inundações, terremotos, erupções vulcânicas ou extinção de animais selvagens.

Uma causa principal disso é a ânsia desordenada pelo poder. Cidades e impérios foram destruídos, campos de batalha polvilhados de cadáveres, escravizados pesarosos arrancados da casa dos ancestrais, prisioneiros sepultados nas masmorras de déspotas eclesiais, incontáveis queimados, decapitados ou fuzilados; tudo para satisfazer a sede de alguém pelo poder.

A sede do poder parece ter sido herdada de ancestrais pré-humanos. A ânsia de dominar parece estar disseminada por rebanhos e manadas. Entre as aves domésticas, existe uma escala de castas em que cada uma bica as inferiores. A que está no alto pica todas os que estão abaixo dela, e o que está bem embaixo é bicada por todos os que estão acima. Esse impulso de dominar pode não ser destrutivo, desde que fique confinado a processos que a seleção natural eliminaria quando eles se tornam danosos para a espécie.

Mas isso, de fato, provoca um enorme massacre quando uma imaginação humana ativa imagina inúmeras formas novas de satisfazer essa ânsia. Mas seria errado supor que o exercício do poder é sempre prejudicial, e a ânsia de demonstrá-lo, invariavelmente perversa. O poder, em seu sentido mais amplo, é a capacidade de provocar mudanças nos objetos que nos rodeiam; e é apenas por esses meios que qualquer coisa revela sua existência. Se, por exemplo, partículas de poeira não desviasse um raio de luz para os nossos olhos, nunca suspeitaríamos de sua presença. Ímãs chamam nossa atenção porque movem corpos de muitos tipos.

As coisas vivas diferem das mortas por causa dos diversos poderes que apresentam: elas crescem, se movem, respondem a estímulos, mudam de muitas formas o ambiente em que estão. O poder, então, é uma medida da existência, e aqueles que não exercem poder algum não vivem.

 

Poder, uma natureza dual

O poder é de dois tipos: coercitivo e persuasivo. O poder coercitivo pode ser exemplificado com um furacão, uma avalanche, um tsunami, que nivela obstáculos não importa de que natureza. Entre os homens, o poder coercitivo é exercido pelo conquistador militar, pelo mercador de escravos, pelo déspota político ou doméstico e por todos aqueles que impõem sua vontade sobre outros sem considerar caráter ou sentimentos.

O poder persuasivo, no reino físico, é a ressonância; testemunhada quando um objeto vibratório – como uma corda de piano – provoca em um objeto próximo vibrações cuja periodicidade natural é a mesma. Persuadimos outras pessoas descobrindo suas tendências naturais, e colocamos seus talentos em movimento da mesma forma que a ressonância se estabelece em corpos materiais. Precisamos convencer seus sentimentos ou sua razão; e quando conseguimos persuadir ambos ao mesmo tempo, nosso apelo será irresistível. Como o filósofo Bertrand Russell destaca em seu livro Poder: uma Análise Social, as figuras de Buda, Jesus Cristo, Pitágoras e Galileu devem sua grande influência sobre a humanidade apenas a seu poder persuasivo.

Uso e Abuso

Quando o poder é desejado por si só, pela simples satisfação de impor a vontade de alguém sobre outros no sentido de comandar ou oprimir, ele é prejudicial e perigoso e tem sido a causa principal dos sofrimentos da humanidade. Por isso, em nosso desenvolvimento pessoal, torna-se necessário assumir a responsabilidade pelo poder que já temos, e sermos guiados por nossa consciência para usá-lo com sabedoria. Dessa forma, o poder tem a capacidade de trazer muitos benefícios à humanidade.

É claro que nossa conduta externa e nossos padrões morais são influenciados pelas noções de certo e de errado que prevalecem na cultura e na sociedade em que vivemos. Os efeitos sutis do poder societário coletivo podem criar ou destruir, fazendo com que fiquemos alegres e criativos ou tristes e destrutivos, gerando cidadãos honrados ou inimigos daquela sociedade. Num nível pessoal, temos que tomar da sociedade aquilo que é bom e transmutar quaisquer inclinações negativas. Assim sendo, usemos nosso poder pessoal para melhorar a sociedade no que pudermos, não importa quão pequeno seja o papel que achamos que desempenhamos ao fazer isso.

Como votantes e parte do eleitorado, podemos pensar no poder que temos de decidir as políticas nacionais e comunitárias, um poder exercido numa medida tão pequena. De um eleitorado de milhões, um único voto pode contar pouco, e podemos sentir que nosso poder é muito fraco para ser exercido. Mas, mesmo se nosso poder político parece insignificante, nossa conduta individual como cidadãos pode elevar ou baixar o tom moral da comunidade em que vivemos.

Nosso poder mais importante é empunhado sobre o mundo natural: a terra e suas criaturas vivas. Se vivemos no campo, temos a capacidade de conservar ou destruir os animais e plantas que nos cercam. Se plantamos, temos os meios de empobrecer o solo ou de conservar sua fertilidade com cuidado. Mesmo em vilas e cidades, pela escolha de alimentação, roupas e outras comodidades, indiretamente exercitamos um poder considerável sobre a terra e seus habitantes. Muitos produtos aparentemente inocentes contêm componentes lindamente embalados que foram obtidos e fabricados por meios que condenaríamos indignados, se estivéssemos totalmente conscientes deles.

Poder e autocontrole

O mais importante de tudo é o poder do nosso eu mais profundo de moderar e subjugar as paixões herdadas de nossos ancestrais em sua longa luta para sobreviver num mundo populoso e competitivo. A menos que possamos controlar paixões, como a raiva, o ódio, a avareza, o ciúme e a luxúria, qualquer poder que temos vai acabar sendo prejudicial em vez de benéfico para a humanidade em geral.

Filósofos antigos citaram Alexandre, o Grande, como um exemplo infeliz de homem cujo poder militar incomparável não se equiparava ao seu autocontrole. Num ataque de raiva, assassinou violentamente seu amigo Cleitos e depois sofreu descontroladamente com o que tinha feito. Aparentemente, um excesso de bebida foi o grande responsável por sua morte na idade tenra de 32 anos. Sua história é prova de que a força do corpo, sangue nobre e sucesso na guerra não conseguem fazer um homem feliz, a menos que ele consiga alcançar aquela vitória sobre seu próprio eu interior.

Nós, que calculamos corretamente o poder que temos, podemos sentir a responsabilidade envolvida e duvidar de nossa capacidade de usá-la com sabedoria; mesmo assim, ele já é nosso porque somos seres humanos. Precisamos decidir se o uso que faremos dele vai ser coercitivo ou persuasivo. Os resultados mostrarão se nossa escolha foi sábia.

 

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