A arte perdida de perder-se

A arte perdida de perder-se

Evelyn Dorio, SRC

Com tantos letreiros atraentes de sinalização nas rodovias de hoje: “Vire à Esquerda”, “Vire à Direita”, “Está seguindo para Leste pela Estrada do Poente”, “Chegando”, “Saindo”… o indivíduo encontra dificuldade em perder-se!

Consideremos, por exemplo, os motoristas que se utilizam da estrada que vai, da localidade onde vivemos, até Eagle Rock. Eles “voam” através de alamedas crivadas de faixas brancas, plantações de arbustos, sinais e desvios e, quase que instantaneamente, chegam. “Quão insípido!”

A noite passada, uma amiga partiu para Eagle Rock e, antes que se apercebesse, havia viajado mais quinze milhas, visto a Taça Rosada, apreciado um pôr de sol, admirado as modulações das sombras em uma velha quinta de Pasadena, ficado a uma distância mínima de Glendale e se dirigido de volta à nossa cidade, por duas vezes. E tudo na mesma viagem!

A maioria das pessoas que se perde uma vez, cria sinalização mental própria. Virar à direita, junto ao grande carvalho, virar à esquerda no prédio amarelo – e nunca mais se perde. Quanta coisa perdem! Frequentemente, visitantes chegam à nossa porta, ofegantes, pálidos e desculpando-se: “Sentimos estar atrasados. Perdemo-nos! Perderam-se e ficaram aborrecidos?

Uma das nossas inteligentes vizinhas teve, certa vez, senso suficiente para seguir, pela estrada errada, para Califórnia Big Trees e, depois de cruzar uma velha ponte coberta, a pé, sobre o rio Merced, encontrou (essa ela não esperava) um velho ferreiro, insípido e enrugado como um tubo vazio de pasta de dentes, ferrando cavalos, sob uma árvore.

Notou, alguma vez, aquele letreiro suburbano: “Se vivesse aqui, estaria em casa agora?” Mas, como poderia descobrir o que está além? Observe um cão voltando de uma animada aventura. Volta para casa numa linha reta e monótona? Absolutamente, não. Perde-se para o norte, para o sul; olha para cima, para baixo, para os lados, para trás; cheira, lambe e ouve. Não perde coisa alguma.

Na semana passada, uma amiga viajou para uma cidade, vinte e cinco milhas distante. Como ela procedeu? Em seu carro, passou ao longo de árvores patriarcais que lançavam sombras sobre altaneiras casas do início do século passado, nas quais balanços enferrujados se escondiam por trás de latadas floridas e restos de pombais permaneciam imóveis, como asas quebradas de avião.

Cruzou, em seguida, por um viaduto, em baixo do qual um lírio isolado florescia, viu uma casa vermelha, presa como um carrapato numa folha, a uma colina de contorno delicado, atravessou um vale cuja grama emplumada agitou-se à sua passagem. Viu, também, os primeiros sinais amarelentos do outono, nas colinas. Então, seu carro ficou, de certo modo, sob a estrada, todos passavam, precipitadamente, por sobre o lugar onde se encontrava e, dali, emergiu numa alameda ladeada por palmeiras, de forma serpeante.

Em seguida, penetrou ela na área industrial; emparelhou com caminhões barulhentos, enguiçou um motor diesel, ouviu o zunido de serras elétricas, sentiu o cheiro de uma padaria e só voltou totalmente à realidade a poucas milhas e a três minutos do seu destino real. Não obstante, certas pessoas falam como se um sentido firme de direção fosse uma dádiva!

 

A Vida é uma Estrada

A vida também é uma estrada entre dois pontos e as pessoas bem-intencionadas colocam letreiros em todo o seu percurso: “Venha cá”, “Não vá lá”, “Case agora”, “Não case agora”, “Afaste-se daquela Organização”, “Esqueça-se daquele vizinho”, “Não goste daquele país”, “Acredite no que lhe digo”. Essas rijas setas impedem que o indivíduo explore as veredas da vida.

O leitor já se perdeu, alguma vez, num mapa? Suponhamos que esteja tentando localizar o Egito. As pessoas eficientes deslizam pelo Globo como aranha aquática sobre um lago e, pronto! Colocam seus carnudos dedos no coração do Egito. Proceda, todavia, o leitor, desta maneira: Veleje através do Atlântico, permaneça algum tempo na Baia de Biscaia, contemple, profundamente, as águas ensolaradas do Adriático. Depois, escolha o caminho a seguir… bem, que temos aqui? Um país, com a forma de uma das nossas mãos e dedos adelgaçados – o Peloponeso. Maravilhe-se, durante alguns momentos, enquanto seu barco navega, à bolina, pelo Mediterrâneo, em direção ao Mar Vermelho; observe Beirute, Jerusalém e o Trópico de Câncer. Ah! Eis o Egito! Mas, não pare. Continue a perder-se até Tanganica e o Transvaal… pense em tudo o que viu além do Egito!

Os dicionários são, também, fontes maravilhosas para nos perdermos. As pessoas eficientes, procurando a palavra “Perdido”, correm rapidamente o dedo e localizam-na, como um corvo descobre uma espiga de milho. Mas, proceda também deste modo: pare, primeiro, no “H” – Halomancia: a arte de adivinhar por meio do sal. Passe, então, por “Joulímetro”: Wattímetro integrador para medir, em joules, a energia despendida num circuito elétrico ou produzida por uma máquina! Imagine! Eles medem a energia em joules. Leia, em seguida:  “Perder a casta, perder o coração, perder o número de suas próprias dificuldades”. Ideia estranha, esta última! Passe, a seguir para: “Tendo se afastado de” ou “incapaz de encontrar o caminho”. Isso, você já sabia. Mas, que mais encontra? Sinônimos, antônimos, mais definições de “perdido” na página seguinte. E, não feche o livro sem qualquer gratidão. Consulte, então, “perempção”, “perfazer”, “pérgula” “peritécios” – belas palavras, especialmente “pérgula”. Que excelente dividendo por nos termos perdido um pouco.

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