A Arte do Misticismo e o Misticismo da Arte

Por Hilderando Montenegro, F.R.C.

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Tanto o artista quanto o místico se diferenciam das pessoas comuns por suas atitudes, por suas mentalidades. E há, na postura de ambos, artista e místico, tantas semelhanças que, em alguns momentos, não conseguimos distinguir um do outro. Através de sua prática o artista torna-se místico, bem como o místico torna-se artista na prática do misticismo. Os limites que os separam são rompidos, pois, ambos desenvolvem suas mentalidades a partir de um mesmo pressuposto: a liberdade.

Há algum tempo o campo de atuação do místico e do artista se diferenciavam pelo meio ao qual se expressavam. O místico era reconhecido por sua atitude e o artista por sua obra, por um produto concreto, material. Entretanto, atualmente até mesmo esta barreira foi rompida; postura artística contemporânea rompeu o meio pelo qual se expressava um quadro, uma escultura, para se expressar também através do gesto. O artista, em sua busca incansável pela plena liberdade de expressão, rompeu todos os limites que o tolhiam e chegou até à pura atitude e daí, fundiu-se ou confundiu-se à postura mística.

Para nós, que praticamos o misticismo ou que somos candidatos a tal prática, é importante compreendermos qual seja realmente a verdadeira mentalidade artística, pois, assim vamos compreender a nós mesmos. Isto pode nos surpreender, porque imaginamos que naturalmente já estejamos conscientes de todo o processo que desenvolvemos em nossa jornada. Contudo, as coisas não acontecem bem assim. Na maioria das vezes estamos mais desnorteados do que pretendemos alcançar (e como alcançar), do que imaginamos. Isto se deve ao fato de que não conseguimos nos “destravar“. Pensamos que somos livres, mas na verdade ainda estamos muito presos a vários fatores culturais, sociais, emocionais.

Não conseguimos abandonar os nossos conceitos mais arraigados. Nossa postura ainda é muito conservadora. E, ter uma postura conservadora, tanto na prática artística quanto na prática do misticismo, é um erro extremamente grave. O conservadorismo atrapalha qualquer tipo de desenvolvimento, de crescimento, de evolução. O conservadorismo termina favorecendo a sedimentação de regras equivocadas e de preconceitos. E ter preconceito em arte ou em misticismo, é impedir que a mente abra-se completamente às verdades superiores. Não podemos crescer se não estamos com a mente livre. Não podemos aprender, de fato, se a nossa mente não está aberta. Não podemos nos expressar plenamente se nos reprimimos, se estamos emparedados por limites, conceitos e preconceitos. Não pode existir progresso mental se não existe liberdade mental. Tanto para o artista quanto para o místico, a ferramenta para o progresso é a liberdade. Assim, antes de tudo, precisamos revisar todos os conceitos que são os nossos limites, os nossos preconceitos e que nos restringem. Não pode haver liberdade se não rompemos os limites dos padrões impostos à nossa mente, tenha esta imposição sido uma herança cultural ou uma formação equivocada feita por nós mesmos.

Tanto artística quanto misticamente, quanto mais espontâneo, e mais natural, mais original se é. E, ser original significa ser autêntico. E, ser autêntico significa ser livre. Originalidade, portanto, é uma qualidade encontrada em grandes obras, em grandes artistas. Originalidade não significa necessariamente ser diferente. Seja como for, aquilo que não apresenta autenticidade, sinceridade, ainda está preso a tabus, preconceitos, padrões e não desperta interesse, reconhecimento e admiração, pois, dele nada podemos tirar que venha nos acrescentar, que venha nos modificar.

Enfim, a prática de ambos, arte e misticismo, requer ciência/conhecimento e técnica/domínio. Vamos então compreender em quais princípios a verdadeira arte se desenvolve para fazermos uma relação entre o nosso próprio fazer místico e, assim, direcionarmos melhor a nossa postura.

Podemos dizer que buscamos arte e misticismo para atingir a plena expressão. O resultado do ápice de uma expressão plena é o que podemos reconhecer como obra-prima. Mas, o que é uma obra-prima no misticismo? Bom, se entendermos o que venha a ser uma obra-prima na expressão artística, então, podemos compreender o que venha a ser uma obra-prima em nosso fazer também. Algumas qualidades são detectadas, para reconhecermos em algo uma ação, um produto, como uma obra-prima.

ORIGINALIDADE

A mesmice e o continuísmo impedem a verdadeira liberdade de expressão. O fazer artístico visa, justamente, um constante romper de conceitos, de preconceitos, de padrões, de tabus. O fazer artístico tem por obrigação a constante quebra de barreiras. Isto significa que o artista está frequentemente procurando uma forma inusitada de se expressar. Porém, não podemos confundir esta busca pelo inédito com modismo, pois, de fato todo modismo não passa de continuísmo, de dependência de mercado. O modismo caminha no sentido oposto ao processo libertário do verdadeiro fazer artístico. O modismo está atrelado a um processo massificante e, consequentemente, torna-se conservador, pois, a despeito das aparências, tem como base o continuísmo. Nada pode provocar admiração se não é original. Este “original” não precisa ser necessariamente novo. Algo só pode ser original se for autêntico. E, para algo ser autêntico precisa ter como base a liberdade. Aliás, para algo ser autêntico precisa romper regras e limites estabelecidos. O fazer artístico não pode se condicionar a códigos morais, religiosos, políticos etc. Se o fazer artístico perder a liberdade, então, nenhuma obra-prima, original, autêntica, pode ser produzida. No misticismo o pensamento original, próprio, autêntico, denuncia a característica daquilo que podemos situar como a mais alta expressão mística: a plena liberdade.

BELEZA

Conceitualmente, a beleza é relativa, porém, seja de que tipo for, a beleza tem como base o equilíbrio. Ou seja, beleza é tudo aquilo que contém harmonia. Não importa se esta “harmonia” ocorra numa arrumação inesperada, inédita, pouco convencional. O artista pode perceber harmonia no lixo, por exemplo. A aparente desordem de um amontoado contém, na verdade, apenas uma nova ordem que é apreendida pelo artista.

Assim, não podemos restringir a beleza nas artes apenas através de tal ou tal expressão especificamente. Não é a forma de expressão que define a beleza de uma obra. A beleza da obra, seja ela de que tipo for, está no seu equilíbrio. Da mesma forma, no misticismo, a beleza de sua expressão está no seu grau de equilíbrio.

CRIATIVIDADE

Assim, como não existe arte se não houver inspiração, também não existe misticismo possível se não houver criatividade. A inspiração, para artistas e místicos, é aquilo que os diferencia das pessoas comuns. Ao contrário do que a maioria imagina, criatividade pode estar presente também em afazeres simples com lavar louça, arrumar a casa. No misticismo a criatividade está presente em toda a sua ação no mundo. O agir no mundo do místico é marcado por sua criatividade, seja ela um gesto, palavras ou ações surpreendentes. Como o artista, o místico se destaca por sua conduta incomum. É importante não confundir aqui este incomum com o bizarro. A postura de Gandhi com a sua não-violência, por exemplo, foi bastante incomum, criativa, mas não teve nada de bizarro.

PERFEIÇÃO

Muitos ainda acreditam que o misticismo não requer ciência, que ele é completamente intuitivo. Na verdade, imaginam que misticismo seja justamente o oposto a tudo aquilo que requer ciência. Mas, é lógico que tudo aquilo que tem início, meio e fim, que cumpre etapas, que segue um processo para se alcançar determinada meta, então, inevitavelmente requer ciência/conhecimento e técnica/domínio. Isto significa que toda arte precisa de disciplina para ser dominada. A perfeição no misticismo se apresenta no pleno controle de nossas emoções. Somos confrontados constantemente com situações que provocam reações em nós. É o controle destas reações que torna o místico um artista de si mesmo. Temos nós, estudantes de misticismo, uma obra grandiosa para expressarmos: a pureza de nosso pensamento. E, para tanto, precisamos, antes de tudo, ser livres. Na prática do misticismo desenvolvemos a arte da liberdade. Esta arte se faz no equilíbrio, na autenticidade e na disciplina. Praticamos o misticismo para expressarmos o mais belo e elevado nível da consciência humana: a SABEDORIA. Na sabedoria encontramos todas as qualidades das obras-primas: originalidade, beleza, criatividade e perfeição.

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